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sexta-feira, 13 de abril de 2018

A Escolha do Jorge: "O Acompanhante"


“O mundo parece estar curiosamente desordenado, talvez por causa do pecado original… Estamos onde estamos. Onde estamos?” (p. 322)

Publicado em 2008 com o título original “The Extra Man”, este portento romance de Jonathan Ames (n. 1964) conheceu a sua edição portuguesa dois anos mais tarde com o título de “O Acompanhante”, sendo um livro que não mereceu o seu devido reconhecimento à data, encontrando-se actualmente fora do mercado editorial.

Divertido e soberbo são dois adjectivos que me vêm de imediato à ideia para caracterizar este romance. Com inúmeras alusões a grandes nomes e obras de referência da literatura contemporânea, Jonathan Ames escreveu um romance que marcou garantidamente o período compreendido entre o final dos anos 90 e a mudança do novo século.

Passado em 1992, numa época em que Bill Clinton se preparava para assegurar os desígnios dos EUA, era também uma época em que a sida continuava a matar milhares de pessoas, sendo, este um romance que retrata em certa medida alguns dos meandros dos clubes nocturnos frequentados maioritariamente por crossdressers e transexuais.

O leitor é imediatamente aliciado nas primeiras páginas com a loucura cometida por Louis ao ser apanhado a experimentar um soutiã de uma colega em plena sala de professores, situação que contribuiu para não voltar a ser contratado no ano seguinte.

Em função disso, Louie decide abandonar Princeton, em Nova Jérsia, tentando a sua sorte na vizinha Nova Iorque, refazendo, dessa forma, a sua vida.

É neste contexto que Louie acaba por conhecer o septuagenário Henry, na sequência de um anúncio de jornal, acabando por partilhar um pequeníssimo apartamento numa das avenidas movimentadas da cidade.

Parte das peripécias é passada no minúsculo apartamento que ao longo da narrativa conhece três tipos de infestações: baratas, pulgas e ratos.

Esta amizade improvável vai-se sedimentando e sem que nenhuma das partes envolvida o assuma, Henry e Louis acabam por se ligar, ao ponto de serem, em certa medida, uma família pouco convencional, sem que se verifique certo tipo de envolvimento de carácter mais físico.

Henry, mais velho, e com uma sexualidade dúbia, viveu na Europa na sequência da herança de uma tia, o que lhe permitiu levar uma vida tranquila, fazendo o que mais apreciava e sem preocupações: comer, beber, frequentar festas, passear.

Acabado o dinheiro, Henry regressa aos EUA, passando a levar uma vida de penúria, dando aulas de literatura e arte, e vivendo de refeições gratuitas ao tornar-se o acompanhante de senhoras idosas endinheiradas que necessitam de alguém para as transportar e que olhe por elas durante os convívios.

Com inúmeras taras, manias e esquemas, Henry arrastou Louie para o centro da vida social de Nova Iorque, sem que nenhum dos dois tivesse dinheiro, nem estatuto. Henry era nas palavras de Louie  “um anfitrião capaz de fazer aquele caos parecer o camarim babelesco de uma vedeta.” (p. 299)

Quanto a Louie, era judeu, não necessariamente praticante, mas era herdeiro de toda uma consciência de culpa por via da tradição judaica, na medida em que sentia frequentemente a dualidade entre o dever e a sua “consciência sexual difusa” (p. 330)

Louie não sabe exactamente qual é a sua identidade sexual, fruto, talvez de ser um indivíduo com valores, ser boa pessoa, no fundo, porque tem sempre a consciência de não querer magoar ninguém, o sentido de dever corre-lhe nas veias, apesar dos seus laivos de loucura que o levam a experimentar todo o género de fetiches, na sequência de se sentir maravilhado com a oferta de anúncios na secção de adultos dos jornais, tais como, espancamento, sessão de crossdresser, peep shows ou frequentar o Sally’s, o bar onde poderia vir a ser um potencial cliente de uma crossdresser ou transexual.

No meio desta alucinante viagem de reconhecimento e/ou descoberta de identidade sexual de Louie, é precisamente Miss Pepper, uma das frequentadoras assíduas do Sally’s, quem melhor define Louie: “Antes de mais, tu és giro. A maioria de nós era capaz de matar para ter essas sobrancelhas louras. Veste-te bem, tens bom gosto, e tens também uma personalidade. Tratas as Queens com respeito. És o típico caça-trans. Não és propriamente hetero, mas também não és gay. És heterossexuado.” (p. 252).

Louie é assim este personagem que se vai construindo ao longo de toda a narrativa. São inúmeras as peripécias e aventuras em que se vê envolvido, mas nada é exagerado. Este personagem é bem real e vive para lá das páginas deste livro. Como a maior parte da narrativa é um diálogo interior, são muitas as reflexões que Louie faz de si e das suas actividades, os seus medos mais terríficos e o sentimento de culpa, sempre presente, fruto da tradição judaica referida anteriormente. É nesse diálogo interior que Louie cresce e se adapta a Nova Iorque, a cidade que tem espaço para todas as pessoas e todas as tendências, sejam elas de que natureza for.

Mas esta amizade improvável, “excêntrica e melancólica” entre Henry e Louie, que se transforma numa qualquer espécie de amor não oficializado, ainda que individualmente se constate essa assunção tanto por sentimentos, como pela via de contrariar a solidão. E é a par de momentos divertidos que Jonathan Ames também confere ao seu romance um tom mais sério e sentimental capaz de agarrar o leitor, conferindo humanidade aos seus personagens para além das folhas de papel, como se pode verificar na seguinte passagem:

“Voltei à fotografia [de Henry] na bicicleta. Era perfeito. Depois olhei para a cama estreita que tinha à minha frente, coberta por vários montículos de roupa suja e escondendo umas quantas garrafas vazias debaixo de si. Tentei olhar com profundidade para os belos olhos do rapaz da fotografia. A nossa idade não devia ser tão diferente quanto isso. Queria avisá-lo do que aí vinha e comecei a chorar. Chorava porque aquele rapaz não fazia ideia daquilo em que se ia tornar, que cinquenta anos mais tarde estaria a dormir num decrépito sofá no meio de um quarto pouco menos que imundo.
Chorei pelo que acontecera à vida daquele jovem e chorei porque o velho em que esse jovem se tornou me tinha abandonado.” (p. 300)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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