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sexta-feira, 6 de abril de 2018

A Escolha do Jorge: A Minha Verdadeira História


“Encontras um berlinde no recreio da escola de manhã e à tarde és um assassino.” (p. 35)

“Escrevo porque o meu pai lia” (p. 7) é o mote para este romance do valenciano Juan José Millás (n. 1946). Narrado na primeira pessoa, “A Minha Verdadeira História” é a confissão de um adolescente que tenta aproximar-se do pai que considera que não o ama. Vivendo numa família rodeada pelos livros, são também os livros que perseguem este jovem, nomeadamente, “O Idiota” e “Crime e Castigo” de Dostoievski. O primeiro porque o jovem da narrativa assume-se como um tonto e que tudo faz para chamar a atenção do pai. Mais tarde, “Crime e Castigo” exercerá um efeito de perseguição na sequência do seu crime, bastando o título ser o suficiente para que faça a assumpção de que a obra é sobre si e o acto hediondo cometido. Deste modo, este jovem considera ser o resultado destes dois livros que não leu.
      Com tentativas de suicídio frustradas cuja intenção era demonstrar o facto de não compreender a falta de amor do seu pai, um escritor falhado que assumira o papel de crítico literário recusando-se, também ele, a ler escritores premiados, o jovem deste romance vê o seu destino dar uma reviravolta no momento em que está prestes a terminar a sua própria vida, transformando-se num assassino.
Deste modo, em vez de se atirar de uma ponte, eis que deixa cair um berlinde que encontrara na
escola e o mesmo vai provocar a morte de uma família na sequência do acidente provocado.
      Do acidente salvou-se Irene, a filha do casal, que ficou desfigurada além de ter passado a usar uma prótese em substituição de uma das pernas. Ao ter conhecimento do sucedido, o jovem decide implementar um plano de aproximação em relação a Irene que, apesar de ser muito religiosa, ambos iniciam um namoro em que rapidamente descobrem os prazeres e a urgência da carne.
      É o segredo que alimenta o amor e a obsessão do jovem desta narrativa em relação a Irene. Os seus medos, a insegurança e desejos característicos dos adolescentes vão aqui evoluindo a par de uma inquietação que é passada ao leitor na medida em que, não raras vezes, pensamos tratar-se de um sociopata, além do crime violento que perpetrou.
      Juan José Millás transforma este pequeno livro numa obra literária imensa, na medida em que a linha que divide a ficção da realidade é bastante ténue, confundindo-se mesmo em certos momentos da narrativa.
     O tom confessional ao longo da narrativa vai ajudar o adolescente a compreender todo um conjunto de paradoxos assentes no seio familiar, percebendo que o que parece não é e o que é deveria afinal ser algo diferente. “E aqui está a minha verdadeira história. Graças a ela descobri que o meu pai me ama desde que me vê como um filho de ficção, precisamente ao contrário da minha mãe, que sempre sonhou com um filho real.” (p. 97)
      Este jogo de identidade, do ser e do não ser, desenvolve-se no jogo das palavras que determinam os limites da literatura que condicionarão a forma como encaramos a ficção e a realidade ou até mesmo onde começa uma e onde começa a outra.
      Juan José Millás consegue uma obra magistral com “A Minha Verdadeira História” na medida em que alia uma excelente história ao melhor que a literatura nos pode dar.

Excerto:
“Eu e a Irene tornamo-nos viciados um no outro. Aproveitando as ausências pautadas da minha mãe, encontramo-nos em casa, onde travamos batalhas amorosas em que perecemos os dois. Quebrados os limites impostos pela desconfiança ou pelo pudor característicos dos primeiros encontros, cada um investiga obsessivamente com a língua e os lábios o corpo do outro, avaliando o sabor dos seus sucos, o tamanho das suas irregularidades e a profundidade das suas gretas. Depois de cada descarga, olhamo-nos constrangidos, como que a perguntarmo-nos se é normal esta maneira de fazer as coisas.
Quando lhe recordo os seus escrúpulos religiosos, ri e voltamos a começar, pois as mesmas cautelas que antes refreavam a sua excitação agora estimulam-na. Parece impossível que certas partes do meu corpo continuem no lugar depois da passagem por elas da sua boca voraz. E ainda mal acabamos de dar uma e já estamos noutra. Conheço o corpo dela palmo a palmo, centímetro a centímetro, mas não consigo evocar as suas dobras quando fico sozinho. Numa espécie de expiação, de emenda, de penitência da qual obtenho um prazer desmedido, lambi os contornos do coto da coxa dela até à exaustão. Por vezes peço-lhe que deixe ficar a perna postiça, para experimentar todas as variedades possíveis do amor, e ela não me diz que não. E quando fica saciada e cai numa espécie de letargo que faz lembrar, pela sua expressão, o dos drogados, brinco a tirar-lha e a pôr-lha.” (pp. 82-83)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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