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terça-feira, 3 de abril de 2018

A Convidada Escolhe: Noites Brancas

Noites Brancas , Fiódor Dostoiévsi, 1848

Tanta coisa para ler e tão pouco tempo disponível… são as premissas que me levam a raramente reler um livro, embora saiba que uma segunda leitura, num período diferente da vida certamente dará origem a um “novo” livro… No entanto, este ano, já por duas vezes voltei a livros lidos há muito tempo.
Foi o caso de “Noites Brancas”, uma das obras de um autor cuja obra me fascinou e acompanhou há quase cinco décadas! Dostoiévki é um autor que não se esquece, impossível mesmo não nos sentirmos acompanhados pelas suas personagens mesmo que o livro onde elas moram, há muito tenha sido fechado. No entanto, a memória de “Noites Brancas” era difusa, talvez pelo ambiente, talvez pelo facto de se tratar de um pequeno conto e daí ter sentido vontade de regressar à sua leitura.
Não é meu hábito resumir, nem isso tem interesse. A prática dos resumos de obras tem sido frequentemente usada de forma preversa para espalhar ignorância e alardear conhecimento de livros que nunca se leram!
Apenas algumas considerações pessoais sobre as duas personagens de “Noites Brancas” que esta segunda leitura me suscitou:
O narrador e personagem central de “Noites Brancas” é um jovem solitário, de 26 anos de idade, há 8 a viver em Petersburgo. Não conhece ninguém porque não se relaciona com ninguém. Não consegue relacionar-se com ninguém. Tem medo de se relacionar com as pessoas. Mas porque deambula pela cidade, tem rotinas que repete obsessivamente, cruza-se sempre com as mesmas pessoas e por isso conhece-as, ou pensa que as conhece. O mesmo se passa em relação aos prédios e às mudanças que lhes ocorrem, que o “sonhador” conhece como se de pessoas se tratasse. Ele reconhece que como sonhador tem muito pouca vida real e por isso acha que “não tem história”. Mas, quando fala com Nástenka, uma jovem que ocasionalmente encontra na primeira noite branca, ele conta a sua história e fala tão bem como se lesse um livro em voz alta.
Podíamos pensar que este é um herói romântico, um “sujeito esquisito”, um tipo que se adequa a um livro do século XIX e que já nada tem a ver com o nosso tempo, com o século da tecnologia e da comunicação. Mas será mesmo? Até que ponto o mundo da hipercomunicação nos aproxima ou nos torna seres cada vez mais solitários e afastados do mundo real e embrenhados no mundo virtual que nos condiciona, manipula e cerceia as liberdades?
E sobre Nástenka, a jovem dividida nos afectos entre o antigo inquilino por quem se apaixonara e o “sonhador” que a ouvia, que a apoiava e que a acompanhou naquelas noites brancas, qual a linha que separa a amizade do amor, quando aquilo que se tem é uma vida não vivida, uma juventude acorrentada a uma avó que a não deixa respirar? Quantas jovens dos nossos dias não continuam a sonhar com um casamento como única “libertação” de um ambiente familiar opressivo, repressivo e castrador?
Concluo que os clássicos são intemporais e que é bom voltar a eles.

Março 2018
Almerinda Bento


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