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quinta-feira, 15 de março de 2018

A Escolha do Jorge: "Um Muro no Meio do Caminho"


“Não percebo se a compaixão me esvazia ou me enche de raiva. Uma indignação estéril, a pior.”

“Um Muro no Meio do Caminho” é a mais recente obra de Julieta Monginho, publicada pela Porto Editora. A obra surge na sequência da sua acção de voluntariado, no Verão de 2016, na ilha de Chios, na Grécia, num campo de refugiados sírios que tentavam a sua sorte, como fuga à guerra, na Europa.
Entramos nesta obra e rapidamente compreendemos que estamos perante vários géneros de escrita. “Um Muro no Meio do Caminho” apresenta-se sob várias facetas, desde o romance, o diário, o ensaio ou o manifesto.

Apesar de os vários personagens serem fruto de ficção, há, certamente, em todos eles um reflexo de dor e esperança espelhadas em todas as pessoas que fugiram do seu país em busca de um futuro melhor. Aqui, não se trata de uma imigração voluntária, mas sim forçada perante a evidência da morte iminente. Ficar na Síria é sinónimo de morte iminente porque ninguém está a salvo.

“Um Muro no Meio do Caminho” é editado precisamente numa altura em que a guerra na Síria atinge contornos de uma crueldade atroz, incompreensível, que tem vitimado milhares ou mesmo milhões de pessoas, tanto aqueles que perdem a vida, como todos os outros que deixam de saber como viver, ficando à mercê das forças em conflito. As imagens e cenas de guerra deixam o mundo ocidental perplexo, contudo, inoperante.

O mundo avançou tecnologicamente, mas o Homem tornou-se incapaz de lidar com situações como esta guerra que se arrasta há anos, capaz de hipotecar, durante gerações, o futuro do país em apreço.
“Um Muro no Meio do Caminho” é simultaneamente um murro nas consciências do mundo ocidental face à sua inacção e (quase) indiferença perante esta catástrofe no Médio Oriente e com repercussões na Europa enquanto continente de destino de milhares de refugiados.

“Um Muro no Meio do Caminho” questiona continuamente o sentido da História. Levanta inúmeras questões, às quais as respostas, tantas vezes falham. Estes acontecimentos são registados, assinalados, questionados, reflectidos para memória futura, para orgulho ou vergonha do Homem, enquanto símbolo civilizacional.

Amina, Ashmahn, Shayma, J., Saud e Omid são os personagens criados por Julieta Monginho e que nos dão uma ideia do contexto de guerra na Síria, as suas histórias, o que deixaram, o que perderam, o que anseiam, os sonhos, a esperança. Histórias dolorosas que, sendo ficção, partiram de tantas, tantas histórias (certamente) ouvidas de fazer doer a alma e o coração. E é nesses momentos que o tom da escrita de Julieta Monginho, através da narradora, também uma voluntária na ilha de Chios, se endurece, sob a forma de um grito de apelo ainda que retorne sob a forma de silêncio.

Milhares de refugiados procuram um futuro risonho, de paz e de esperança numa Europa que crêem civilizada, solidária, mas que esbarram, literalmente, com “Um Muro no Meio do Caminho”, o muro da indiferença, mas também do ódio, à medida que o Velho Continente, não tendo aprendido com a História recente, endurece o seu discurso à medida que assistimos ao avanço da extrema-direita a ganhar terreno em países como a Áustria, Alemanha, Hungria e Polónia, entre outros.

O mundo apresenta-se cada vez mais perigoso e perante a ideia de que de facto vivemos melhor e de termos uma maior longevidade, o certo é que o mundo vive cada vez mais confrontado com os sucessivos ataques terroristas, gerando, assim, a insegurança generalizada.

“Um Muro no Meio do Caminho” é uma obra pejada de gritos e silêncios perante o absurdo do mundo em que vivemos, a incompreensão, a inacção, a culpa.

“Os sonhos que Amina desenhava tinham desejos humanos e caprichos divinos.”

Excertos:
"Quando um dia se fizer a história deste momento vergonhoso da atitude europeia e da ascensão xenófoba, do acervo fotográfico emergirão as fotografias que retratam estes móveis aleijados que um benemérito considerou à medida de quem não pertence ao mundo dos sonhos, mas ao mundo das sobras, ao que restou da devastação. O mundo dos desejos está reservado aos que moram no continente de marca, tanto mais altivo quanto mais se afasta da pobre costa sul. Aos que querem lá entrar exige-se que deixem à porta as ilusões e, se teimarem, ao menos que tomem o lugar de pessoal menor que lhes foi reservado à nascença. As poltronas escavacadas estão muito bem para eles, sentadinhos e à espera do lado de lá do muro onde está pendurado o letreiro ‘Do not disturb’.”

"Todas as frases da sua história começam com um 'No'.
No children, no husband, no parents. No food, no doctor, no answer.
Nada.
Pode alguém viver nessa palavra que nem o abismo consegue definir?
Pode a mulher que a ouve ficar ali, em frente dela, sem palavras, 
no words,
sem chão,
no ground,
sem ar que se respire.
no breath?”

"Estas vidas não se podem apanhar do chão e fingir que nunca lá estiveram, que o sol voltou a brilhar e a maré a encher à espera dos turistas. Estas são vidas que precisam de um sopro compassivo, solidário, plural, palavras em desuso."

"As pessoas em fuga limitam-se a apelar não aos impulsos, mas aos valores estruturantes com que a Europa dos néons pavoneia a sua superioridade perante os povos bárbaros. A Síria é um teste para a Europa. Um teste em que a Europa reprovou ao resignar-se aos muros e aos campos (...)."
"no words,
sem chão,
no ground,
sem ar que se respire.
no breath?"
"Aos que querem lá entrar exige-se que deixem à porta as ilusões e, se teimarem, ao menos que tomem o lugar de pessoal menor que lhes foi reservado à nascença. As poltronas escavacadas estão muito bem para eles, sentadinhos e à espera do lado de lá do muro onde está pendurado o letreiro 'Do not disturb'. mais altivo quanto mais se afasta da pobre costa sul."

Texto da autoria de Jorge Navarro

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