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terça-feira, 13 de março de 2018

A Convidada Escolhe: "O Doente Inglês"

O Doente Inglês, Michael Ondaatje, 1992

Este era um dos livros que estavam “adormecidos” há duas décadas na minha estante. Vi há uns bons pares de anos apenas um pouco do filme baseado no livro e como não me entusiasmou, o livro ficou sendo esquecido, até que num clube de leitura uma opinião me levou a desenterrá-lo do seu esquecimento. Em boa hora!
      É um livro belo, poético, triste. Sobre a fealdade da guerra e os seus despojos, sobre os livros “única porta de saída da prisão”, sobre o amor. Considero que os quatro protagonistas do romance – o doente inglês, Hana, Caravaggio e Kip – são náufragos da guerra, mas também sobreviventes ou pessoas em busca da sobrevivência.
      A acção principal decorre no final da guerra num antigo convento de freiras – a Villa San Girolano – a norte de Florença, que havia sido ocupado pelas tropas alemãs e posteriormente convertido em hospital pelos aliados, entrelaça-se com os testemunhos dos personagens nos seus relatos de vidas passadas no deserto da Líbia, em Inglaterra, no Canadá ou na Índia.
      Hana tinha sido a única enfermeira que ficara naquele antigo convento para tratar aquele doente terminal, sem nome e quase sem rosto devido às queimaduras. Edifício destruído e sem infraestruturas mínimas, com salas entaipadas por precaução devido às minas deixadas pelos alemães antes da fuga, dispunha de um espaço exterior onde era possível plantar alguns vegetais e uma biblioteca onde Hana ia buscar alguns livros que lia ao seu doente sem nome.
      Deitado num quarto semidestruído, as antigas pinturas em trompe l’oeil das paredes amenizam o seu sofrimento e a destruição deixada pela guerra, com o apoio da morfina e da companhia de Hana e das suas leituras. Espião ou aliado, aquele homem que trabalhara durante anos como explorador e cartógrafo do deserto africano e que um dia foi transferido para um hospital em Itália, apenas tinha consigo o livro de “Histórias” de Heródoto que resistira ao fogo e que estava repleto de notas pessoais e recortes.  O doente inglês era um enigma.
      É com a chegada de Caravaggio, um antigo amigo de família de Hana que ela considera como tio e posteriormente com a presença do sapador sikh Kirpal Singh (Kip) especialista em desactivar bombas de acção retardada ou bombas que ficaram por explodir, que se vai alterar o quotidiano do doente e da enfermeira. Através das suas conversas, dos relatos e episódios cuja leitura não é linear, antes lenta e irregular, vamos desvendando os enigmas das suas vidas, os amores, as traições, os caminhos percorridos até àquela villa em ruínas. Como náufragos. Como despojos de guerra.
      Na difícil busca de um equilíbrio naquela villa da região toscana, naquele dia de Agosto de 1945 tudo se desmorona com a notícia do lançamento de duas bombas sobre Hiroxima e Nagasáqui. Para Kip, o especialista sikh treinado pelo exército britânico para desmantelar bombas, que nunca entendera os motivos do seu irmão mais velho preso por se opor ao poder colonial opressor, é o mundo virado ao contrário e os olhos abertos para uma realidade que ele nunca quisera ver. É o virar as costas ao velho continente, o virar as costas ao seu amor por Hana e o regressar às origens, à Lahore que o tinha visto nascer.
      Penso que este romance, até pelas frequentes referências à literatura, à história antiga, aos costumes e sabedoria das tribos de beduínos, à geografia, à arte e cultura de Itália e de Florença é um manancial para que outros possam discorrer muito para além destas breves notas que aqui trago. A literatura é um tesouro que nem sempre valorizamos e às vezes temos livros que aguardam aquele dia para serem descobertos.

Março de 2018
Almerinda Bento

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