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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

"Viajante à Luz da Lua" de Antal Szerb

Fui atraída pela capa deste livro e porque as recomendaçōes que tinha de amigos também eram muito boas. Aliás, o Jorge já aqui vos tinha falado dele.

É dificil falar-vos de um livro que, se por um lado me prendeu nāo me deixando abandoná-lo, por outro me irritou profundamente o comportamento de certos personagens. Sobretudo o protagonista principal, Mihály. O autor caracterizou-o excepcionalmente, disso nāo tenho dúvidas. Aliás, é devido à sua caracterizaçāo excepcional que se foi gerando em mim uma irritaçāo constante em relaçāo (poderei dizer intransigência?) a esse protagonista.

É um homem perdido entre o presente e um passado vivido na sua juventude, onde a morte de um amigo o marcou profundamente. É um homem que busca, nāo se sabe bem o quê e ele próprio também nāo sabe o que procura, nem o que quer. E isso fá-lo ter reaçōes imprevisiveis, repentinas e nada pensadas. Como, por exemplo, abandonar a sua mulher e partir para outro ponto de Itália onde se encontravam em plena lua de mel...

O livro foca-se, principalmente, neste personagem embora dê algum relevo à história da sua mulher e a da sua amiga de infância, Éva. Estas personagens sāo, no mínimo, estranhas e marcadamente com um caracter inseguro, com personalidades ainda por construir, que se vāo revelando durante toda a leitura. E se Mihály parte numa viagem de auto-descoberta, as personagens femininas também a realizam, nas páginas desta história, cada uma à sua maneira.

É uma obra que, depois de lida, nos faz pensar. Como referi, nāo foi uma obra em que ficasse apaixonada pelos personagens. Contudo, reconheço que estāo caracterizados com mestria e nos fazem reflectir sobre o que se quer da vida e o que os outros esperam de nós. Sobre quem somos: se aquilo que queremos ou aquilo que devemos ser.

Terminado em24 de fevereiro de 2018

Estrelas: 4*

Sinopse
Mihály, um homem de negócios de Budapeste, vai passar a lua-de-mel em Itália com a mulher, Erzsi. Os problemas começam na primeira paragem, Veneza, mas é em Ravena que um antigo amigo de Mihály perturba o casal com histórias do passado. Ao perder o comboio para Roma, Mihály foge da mulher e vagueia pelo país, numa viagem de autodescoberta. Dividido entre o desejo e o dever, o que quer e o que os outros esperam de si, a boémia da adolescência e as responsabilidades de adulto, Mihály reencontra os seus fantasmas e questiona o sentido da vida.
      Amor e morte cruzam-se neste romance trágico cómico de 1937, uma obra-prima do húngaro Antal Szerb, traduzida em diversos países, e que chega finalmente a Portugal.

Cris

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A Convidada escolhe... "Mulher à Beira de uma Largada de Pombos"

Maria Jorgete Teixeira de quem já conhecia a sensibilidade para a escrita, chamou a este livro de contos, “um livrinho”. Um belo livro de onze contos inspirados em poemas de José Afonso, sendo o último o epílogo a que deu o título “Mulheres”, que sintetiza a diversidade das mulheres, o coração desta colectânea.
      É um livro para ser lido devagar, para ser saboreado.
      Em “Era um redondo vocábulo, uma soma agreste” a força e a reciprocidade do amor, mesmo que fugaz de Laura e que Manuel recordava na prisão. Entre os muitos homens que acolhia, ele era o único que abraçava e beijava como se fosse o único.
      Em “Avenida de Angola” temos a realidade da escravatura sexual protagonizada por Djamila, a menina do campo levada para a cidade para ser usada por homens de gravata e gente da alta.
      A “Velha da Terra Morena” é uma mulher sem nome, uma mulher que não teve sonhos, porque isso é para gente fina. O monólogo de uma mulher cuja vida foi só trabalho e canseiras, que vende a erva que apanha nos campos e que quer morrer a seu jeito, não num lar como tantos outros velhos.
      “Quanto é doce” trata da intermitência do amor, do drama da institucionalização, da precariedade dos afectos. Porque a adopção é coisa séria, aquele menino que conheceu nomes de várias mães perguntou quando chegou a casa de Dália: “É para sempre?”
      Lembrando o “O Menino de sua Mãe” de Fernando Pessoa “O soldadinho não volta do outro lado do mar” conta-nos a história do soldado José, nome que a mãe escrevera a canela no prato de aletria ainda fumegante no dia em que, como se lia no aerograma, ele deveria chegar da guerra.
      “Teresa Torga” foi uma mulher vencida por fantasmas que a prenderam a um fim infeliz. Famosa como cantora de fado e pela sua beleza, o seu destino foi marcado pela tristeza e solidão. Esquecida de todos, ignorada na morte, o seu nome permanece graças à canção de José Afonso.
      “No lago do Breu” é uma história da voragem, da atracção pelo submundo feio, sujo, triste e marginal do sexo sem amor e da droga onde só mora a solidão.
      “Que amor não me engana” é protagonizado por Ausenda que encarna as mulheres mal-amadas, desprezadas e desesperadas por não conseguirem aguentar a traição do amor. Mas nem sempre as histórias tristes de mulheres desesperadas acabam mal…
      Um dos contos mais fortes conta a história verdadeira de uma chefe de brigada da PIDE Filomena/Mena e de uma presa política identificada como a Mulher. O conto é “Na Rua António Maria” onde “vive a maior confraria/dessa válida nação.” Afinal, a sanha da PIDE através da brutalidade de Filomena não resiste à resistência e argúcia da Mulher massacrada que confronta a chefe de brigada com a fraqueza que esconde atrás duns óculos escuros! Quem sai derrotada: a mulher massacrada ou a agressora?
      O belo “Chamava-se Catarina, o Alentejo a viu nascer” é um diálogo entre duas Catarinas, o confronto entre duas gerações e duas épocas separadas por sessenta e quatro anos que retratam mundos e vivências tão diversos, mas onde o peso do nome Catarina continua como traço forte e marcante.
      Por fim “Mulheres”, pura poesia. “Elas eram assim, perpetuando a sombra refrescante das casas. Através dos séculos existindo na felicidade dos outros, presas à construção dos sonhos das crianças e dos homens que nunca lhes pertenciam, inteiramente.”
      Um agradecimento à Maria Jorgete por este convite à releitura dos poemas do Zeca.

23 de Fevereiro de 2018

Almerinda Bento

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

"O Diário Secreto de Hendrik Groen aos 83 anos e 1/4"

O facto de nāo se saber quem é o autor deste livro gerou um certo mistério que me acompanhou durante toda esta leitura: terá o autor a mesma idade do protagonista e até que ponto terá retratado a sua vida?

Hendrik é um velhote solitário a quem ninguém visita. Vive num lar. Dá-se conta que os seus actuais (e únicos!) amigos estāo nesse mesmo lar onde habita e é com eles que vai passando os seus dias. Com algumas mazelas é certo, mas fala delas com humor (uma delas é a incontinência de que sofre) e consegue viver os seus dias com uma certa independência. Observador e crítico, vai anotando no diário passagens que o preocupam do seu dia-a-dia e de quem o rodeia mas, também, sobre aspectos políticos e sociais de Amesterdāo.

Escreve no seu diário todas as peripécias que se lembra da sua vida no lar (denominado significativamente de "A Decadência"), que com as suas regras, algumas pouco transparentes, criam nos utentes alguma insastisfaçāo e contra as quais questionam amiúde (quem ainda está no "lado de cá", porque existe um "lado de lá", uma ala fechada para os que sofrem de perturbaçōes mentais). Os boicotes às regras do lar que Hendrik e alguns amigos participam sāo, no mínimo, ilariantes! O facto de ir escrevendo quase diariamente é um exercício de memória que, reconhecidamente, o ajuda a manter-se lúcido e crítico.

Sendo um diário, as suas observaçōes sāo, algumas vezes, um pouco dispersas mas há no livro um fio condutor que percorre a vida de Hendrik e amigos. Fala de assuntos muito sérios (a eutanásia, por exemplo) com uma pitada de humor que nos dispōe bem mas que me angustiou bastante. Um retrato (muito fiel, pareceu-me) do quanto a vida num lar pode ser deprimente mas, também, o quanto se pode e deve aproveitar os dias como se fossem os últimos. A prova disso é a criaçāo,por parte de Hendrik e alguns amigos, dum grupo intitulado de "Velho mas nāo morto", que se dispōe fazer visitas/saídas, programadas à vez por cada elemento.

Nāo sei se o livro é autobiográfico ou nāo, mas, de qualquer forma, quero dar os meus parabéns ao autor: a verosimilhança com (aquilo que acho que é) a vida real duma pessoa idosa é algo de assustador e, nāo fora o humor subtil com que nos brinda frequentemente, passaria todo o livro com um peso no coraçāo. Como podemos transformar a velhice numa etapa positiva? A falência progressiva de todos os orgāos, incluindo o cérebro, que alegrias traz? Mesmo escrito com humor, que nos impele para um sorriso permanente, custou-me muito ler estas páginas! Quanta verdade escondida nelas!

A forma como é tratado o idoso hoje em dia em quase todas as nossas sociedades deve ser repensada! É que, se tivermos sorte, todos lá havemos de chegar, certo?

Nāo posso de deixar de transpôr para aqui algumas frases do livro que me tocaram, tanto pela sua ironia como pela verdade que elas encerram:

"É uma vida de sentido único em direcçāo à cova, é o que é."

"Nāo acredito que alguma vez se consiga passar meia hora sem que alguém traga uma doença à baila."

"Noto que a escrita tem um efeito terapêutico: estou mais descontraído do que frustrado."

"Aqui deveriamos viver a vida como se cada dia fosse o último, mas nāo, preferimos desperdiçar as nossas valiosas últimas horas com ninharias e mexericos."

"Os assuntos nem sempre fluem espontaneamente e eu tenho de ponderar cuidadosamente as palavras. Contudo, a obrigatoriedade de escrever aguça-me a vista e mantém-me atento."

Terminado em 18 de Fevereiro de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Hendrik Groen pode estar velho, mas ainda muito longe de estar morto, e espera não ser enterrado tão cedo. Os seus passeios diários são cada vez mais curtos porque as pernas começam a dar de si, e as suas idas ao médico são agora mais frequentes do que ele gostaria. Hendrik está velho, mas quem disse que tem de viver confinado ao lar para idosos perto de Amesterdão esperando que a morte chegue? Quando o Ano Novo começa, decide escrever o seu diário... Um romance inspirador que se tornou um fenómeno literário em todo o mundo. Ao chegar à última página, será difícil ao leitor, de qualquer idade, despedir-se de um personagem tão encantador e divertido.

Cris

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Faltam 8 dias


«Anatomia de um Escândalo»
de Sarah Vaughan
dia 05 de março nas livrarias

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

  

  

  


  


Ofertas das editoras parceiras:
- Quetzal, "Na Memória dos Rouxinois"
- Booksmile,
O Coelho e o Urso, Mas que coelho esquisito e o pica pau barulhento"
- Topseller, "Anatomia de um Escândalo"
- Suma de Letras," Boneca de Trapos"
Porto Editora, "Um Muro no Meio do Caminho"

Os restantes foram comprados num alfarrabista e nas promoçōes da Bertrand Online.

Faltam 10 dias


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Faltam 11 dias



«Anatomia de um Escândalo»
de Sarah Vaughan
dia 05 de março nas livrarias

Faltam 12 dias


"Nem Um Som" de Heather Gudenkauf

Foi num ápice que li este livro. Intenso, perturbador e muito bom! Tem o condāo de nos deixar em estado de alerta total em todas as suas páginas. 

O início do livro é como uma bomba relógio. Explode-nos na cara sem estarmos preparados, tal é a força das palavras e os terríveis acontecimentos com que nos deparamos.

Sabendo que a protagonista é surda, sentimos nas suas palavras o silêncio perturbador com que vive todos os seus dias. A ausência de barulho pode ser terrível e, para quem é ouvinte, a explicaçāo dada por Amelia do que é nāo poder ouvir é simplesmente aterradora. Uma experiência que partilhamos com Amelia porque está relatada com uma mestria surpreendente! Foi das sensaçōes que mais gostei porque mais real.

O mistério está presente em cada página, um assassino rodeia Amelia mas o leitor nāo adivinha quem é. Sozinha, ela desconfia de tudo e de todos. Com momentos de puro terror, achei a trama desta história muito bem equacionada e delineada. Como disse, o facto de Amélia ser surda profunda faz com que o leitor "oiça" e sinta o seu silêncio, o seu mundo de sons que nāo chegam... 

Muito bom mesmo! Capa perfeita! Classificaçāo máxima.

Terminado em 13 de Fevereiro de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Para sobreviver ao perigo num mundo sem sons, todos os outros sentidos têm de estar em alerta máximo.
      Após um trágico acidente, Amelia Winn perde a audição, entrando numa espiral de depressão que a leva a procurar conforto no álcool e a afastar-se de tudo o que de mais importante tem: o trabalho, o marido e, sobretudo, a enteada, que tanto ama.
      Agora, passados dois anos, e com a ajuda do seu cão de assistência, Stitch, Amelia decide retomar a sua vida. Mas, quando o corpo de uma enfermeira sua amiga surge a flutuar num rio perto de casa, Amelia mergulha num mistério perturbador que ameaça destruir tudo outra vez.
      À medida que as pistas começam a aparecer, o perigo volta a rondar a vida de Amelia. Quanto estará ela disposta a arriscar para trazer a verdade à superfície?

Cris

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"O Filho de Noé" de Eric-Emmanuel Schmitt

Um livro lido em pouquinhas horas. É um livro dirigido a um público juvenil mas gosto, de vez em quando, de pegar num livro para gente mais nova e ver/ler como os assuntos sāo tratados, como o autor se dirige ao leitor. Li alguns dos seus livros publicados (podem ver aqui , aqui e aqui as minhas opiniões) e gosto da sua escrita simples mas directa. 

A história é-nos contada por um menino judeu que se vê separado dos seus pais para que, separados, tenha mais hipótese de se salvar. Muitas crianças foram obrigadas a crescer e viver nesse período conturbado que foi a II Guerra longe dos seus progenitores e restante família. Alguns nunca se vieram a reunir. 

Joseph, no entanto, teve sorte. Escondido num orfanato católico suportou a solidāo, a fome e o medo. Terminada a guerra, a angústia: os seus pais viriam buscá-lo? Nāo é difícil imaginar que poderia ser uma história real mas que, felizmente, tem um final feliz.

Este é um livro próprio de um público mais jovem, como já referi, e aflora alguns problemas vividos sobretudo pelas famílias judias nesse terrível periodo. Nāo é muito pesado no sentido em que passa um pouco ao lado de todo o sofrimento passado por esse povo nos campos de concentraçāo e, por isso, creio que é um bom livro para ser dado como introduçāo à temática do Holocausto.

Gostei muito. Aconselho a sua leitura, sobretudo para quem quer iniciar um jovem neste tema da História que nāo deve ser esquecido!

Para saber mais sobre este livro, consulte-o no site da Presença aqui.

Terminado em 11 de Fevereiro de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
1942. Auge da Segunda Guerra Mundial. As rusgas começam. O pequeno Joseph, de sete anos, judeu, é afastado dos pais para conseguir sobreviver. Aprende a ocultar o seu nome, a sua história, os seus sentimentos. Escondido num orfanato católico, vai crescer acompanhado por um sacerdote, o padre Pons, um homem simples que se empenhará em manter viva a cultura judaica e em transmiti-la às crianças. Num universo à primeira vista cristão, o padre Pons instalou uma sinagoga secreta. Tal como Noé, o padre decidiu salvar a humanidade. Apesar daquilo que é. Uma vez restabelecida a paz, o que irá ser destas crianças com esta dupla identidade?

O Filho de Noé é um romance curto e belo, um estilo a que Eric-Emmanuel Schmitt já nos habituou.

Cris

A Convidada Escolhe: "Jerusalém"

O que posso dizer sobre este livro do jovem Gonçalo M. Tavares para além da sua escrita rigorosa e que nos agarra na sua técnica narrativa de construção de personagens? Os capítulos têm por títulos os nomes das personagens que neles aparecem, enquanto a referência a Jerusalém – “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita” – proferida por Mylia a Ernst, apenas surge na primeira vez que se reencontram, bem mais a meio da narrativa. Depois disso, só mais uma ou duas vezes, de novo esta frase é repetida por Mylia e Ernst, dois cidadãos que em determinado período das suas vidas foram internados num hospício para pessoas com perturbações mentais, e que é uma espécie de senha, de linguagem cúmplice que só os dois conhecem.
      Mylia vive a dor física de uma doença que os médicos dizem ir matá-la num curto espaço de tempo. Só um milagre poderia salvá-la, porque a medicina nada poderá fazer por ela. Para tentar atenuar a dor, sai e percorre a cidade à noite à procura de uma igreja, só que àquela hora as igrejas estão fechadas e então sobrevem-lhe uma dor maior, a da fome. Alguém que ela encontra no caminho lhe diz que não é aconselhável ela andar por aquele sítio à noite, porque é perigoso. Mas para ela, cuja doença é irresolúvel, que perigo é andar ali à noite na rua? Esquizofrénica, em tempos depositada num hospício de referência pelo ex-marido, um médico e investigador de renome considerado cidadão do ano, onde foi despojada da sua personalidade, do seu eu mais profundo e mutilada sem que para tal lhe pedissem autorização, era ali na rua que estava o perigo?
      As restantes personagens que naquela única noite cruzam as suas vidas e os seus destinos estão muito bem caracterizadas, mas sem ter a intenção de resumir seja o que for, gostaria de me debruçar sobre um aspecto que para mim surgiu como fulcral no livro e que tem a ver com a fronteira entre o normal e o patológico, onde está o bem e onde começa o mal, o que é violência e o que não é. Para Ernst, que nunca mais conseguiu esquecer o hospício Georg Rosenberg e Gomperz, o médico gestor da instituição que lhe suscita nojo e repulsa, a coisa mais perturbante era a pergunta que constantemente faziam aos utentes: “Em que é que está a pensar, meu caro?”. Aí, para quem tinha como função regular os comportamentos dos loucos, o importante era saberem o que eles estavam a pensar, para os poderem despersonalizar, controlar, aniquilar; quaisquer manifestações de afectividade eram consideradas imorais e reprimidas. A questão da ausência de direitos por parte das pessoas com algum tipo de deficiência, nomeadamente os direitos sexuais e reprodutivos, que surge neste “Jerusalém” fez-me recordar outros dois livros que também me impressionaram bastante: “O Vento Assobiando nas Gruas” de Lídia Jorge e “O Meu Irmão” de Afonso Reis Cabral.
      E Theodor Busbeck, ex-marido de Mylia, renomado médico e investigador, interessado em perceber e estudar o horror a partir dos genocídios ocorridos na história da humanidade acabou por produzir uma tese que profetizava que povos iriam no futuro ser exterminadores e quais iriam ser exterminados! O absurdo da tese, resultado de muitas horas de investigação, suscitou imensa controvérsia, mas houve alguém com discernimento que apelidou o seu autor de louco e o aconselhou a internar-se no hospício onde a ex-mulher tinha estado!
      Termino com a referência aos prémios alcançados por este romance que pertence à série O Reino: Prémio Ler/Millenium BCP 2004, Prémio Literário José Saramago 2005 e Prémio Portugal Telecom de Literatura 2007 (Brasil).

15 Fevereiro de 2018
Almerinda Bento 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

"Yoro" de Marina Perezagua

Quando estava a meio desta leitura senti-a, no mínimo, como muito estranha. Muito estranha mas, ao mesmo tempo, muito boa, excelente mesmo! No final tudo fez sentido com as peças a encaixarem-se como um íman que as puxava para o lugar certo. Imaginei, no final da última página, como seria possuir esta história dentro de mim e cortá-la em pedaços e baralhá-los de forma a permitir ao leitor conhecê-los aos poucos... No fundo, imaginei-me dentro da cabeça da autora que, sendo dona desta narrativa, soube, com tanta mestria, explorar e contar de forma sublime um relato tāo duro e diferente do habitual.

Nāo posso desvendar mais do que a sinopse revela sob o risco de vos contar demais. Mas posso dizer-vos que precisam de um estômago forte pois, creio, ninguém está preparado para tanta dureza e em cada página ouvir, relato após relado, como o Homem consegue ser tāo cruel. A maldade na sua forma mais crua e dura.

Posto isto, se o vosso estômago aguentar, digo-vos que precisam de ler este livro. Nalgumas partes senti-me perdida na história, sem saber qual a sua direcçāo e o seu sentido mas a autora, nas māos de H, uma sobrevivente de Hiroxima, relembra-nos amiúde que está a explicar o motivo do seu crime. Sim, logo no início sabemos que H cometeu um crime e que se dirige a alguém que a procura por esse motivo, explicando as razōes que a levaram a isso. Escreve páginas e páginas contando a sua vida. Nada nos prepara para o que ela escreve. Nada!

Um livro duríssimo e desconcertante. Marina Perezagua atinge o leitor com pequenas farpas vindas de acontecimentos que tiveram lugar na nossa História Mundial (Hiroxima, Ferrovia da Morte na Brimânia, Campos de Refugiados no Congo/Goma, sāo alguns exemplos) e que denigrem o carácter do Homem, criando uma narrativa única e imperdível.

Terminado em 11 de Fevereiro de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
«Concluí que, se tivesse de escolher um nome para nós, escolheria "os que trazemos a bomba dentro de nós", dado que a manhã em que um bombardeiro B-29 lançou o Little Boy em Hiroxima foi só o início da detonação. Noventa por cento de todo o mal que sofreríamos, nós, os sobreviventes, iria sendo doseado minuto a minuto, mês a mês, ano a ano, emprenhando-nos desse mal que, se fosse abortado, seria só para nos abortarmos com ele.» Yoro é uma odisseia assombrosa pelos lugares mais profundos e negros da mente humana. Ecoando Dom Quixote, Wim Wenders e Herzog na sua tensão narrativa, este romance é a busca de uma mulher por identidade, justiça, compaixão e maternidade. H, a narradora e protagonista, confessa um crime nas primeiras páginas. E, em tom desafiante, continua, pedindo ao leitor que se atreva a ler a sua história, a sua confissão. H nasce em 1945, no momento da explosão da Little Boy sobre Hiroxima. Anos depois H conhece Jim, um soldado norte-americano que procura, desde a guerra, uma criança que lhe foi entregue e depois retirada: Yoro. Apaixonados, percorrem o mundo seguindo as mais ténues pistas, até que, na viagem final, a verdade — complexa e perturbadora — revela o crime de H e a sua razão. Torrencial, cru, pendendo entre polos opostos — amor e desespero, encontro e confusão, descoberta e prisão —, Yoro carrega nas suas páginas o caos pós-Segunda Guerra Mundial, o encontro frontal com a sexualidade e o mundo, a violência da linguagem e da lógica.

Cris

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Ao Domingo com... Humberto Duarte


Não é fácil escrever uma apresentação em nome próprio.
      Às vezes, num texto como este, tenho vontade de apresentar um outro eu, prolongar a ficção, confundir o autor com uma personagem por ele imaginada, dar-lhe romantismo, autoridade, carisma, uma vida épica, repleta de peripécias e de lugares exóticos.
      Não poderá o autor transfigurar-se num reflexo dos universos que cria? Tornar-se-ia muito mais atrativo aos olhos de quem o lê e não o conhece, ganharia uma aura de inacessibilidade, guardaria a devida distância para o comum dos mortais. Porque não podem ter os escritores – todos os escritores! - vidas como as de Hemingway, Jack London, Kerouac ou o nosso Luís de Camões? Ou será que as vidas também se estimulam e engrandecem a partir dos textos e não só dos lugares ou das aventuras?
      Comum mortal me confesso, paradigma do aventureiro de trazer por casa, cabeça na lua, mas pés na terra, apesar da vontade de voar. Humberto Duarte, dois livros editados, aprendiz de escritor.
      Ao contrário do mais lógico, comecei pelo romance mais longo (Um anjo pela metade) e só mais tarde assomaram à luz do dia os contos mais curtos (O ouriço malicioso e outras histórias de amor, ciúme e resignação). Já não são meus, perdi-os por aí e só espero que alguém os encontre. Outros fervilham na cabeça, à espera da oportunidade de ganharem asas e vida própria. É que já percebi que o mais difícil era o primeiro, tinham-me avisado. Depois o vício instala-se e já não se quer parar.
      Tenho a esperança ou a utopia de um dia também poder voar junto dos meus heróis.

Humberto Duarte

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Na minha caixa de correio

  

Oferta do dia dos namorados (sim, 26 anos de casamento e nós namoramos!):
-Regresso à Ilha e Um Estado Selvagem

Oferta da editora Matéria Prima:
- A Vida Nāo Se Improvisa

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A Escolha do Jorge: "Bom Dia, Tristeza"



“Naquele Verão, tinha dezassete anos e era totalmente feliz.” (p. 17)

“Bom Dia, Tristeza” de Françoise Sagan (1935-2004) é a obra que assinala o início das publicações da nova editora A Casa dos Ceifeiros, repondo, desta forma, nas livrarias um dos clássicos da literatura francesa do século XX.
      Escrito com apenas dezoito anos, “Bom Dia, Tristeza” transborda muito de autobiográfico através de Cécile, a personagem principal do romance. Com a fúria da juventude, este romance transpira de emoções e de desejo, o apreço pelo prazer dos corpos, a descoberta da sexualidade, o agir através das pulsões e ao mesmo tempo a inconsequência dos actos.
      Tendo como pano de fundo o início do Verão, numa região costeira do Mediterrâneo, Cécile e o seu pai de quarenta anos, viúvo, gozam umas doces e prolongadas férias afastadas do buliço de Paris.
      Com um ambiente propício ao descanso, mas também à luxúria e lassidão, o jovem pai Raymond mergulha num triângulo amoroso com um desenlace desastroso tanto quanto trágico, ao passo que a jovem Cécile observa o pai, criticando-o nos actos, pela sua falta de moral, mas ao mesmo tempo sente-se atraída pela arte da sedução, graças à enorme cumplicidade existente entre pai e filha, partilhando ambos das mesmas ideias e ideais, nomeadamente, no que concerne à noção de beleza.
“Sem partilhar a aversão que o meu pai demonstrava pela fealdade, e que muitas vezes nos levava a conviver com gente estúpida, experimentava, junto de pessoas destituídas de atractivos físicos, uma espécie de constrangimento, de ausência, e a resignação perante a falta de encanto afigurava-se-me como que uma enfermidade indecente. Na verdade, que procurávamos nós senão agradar? Ainda hoje não sei se este prazer da conquista oculta um excesso de vitalidade, um gosto pela acção ou uma necessidade fugaz, inconfessada, de apoio e serenidade.” (p. 18)
      Por seu turno, Cécile sente-se atraída por Cyril, um rapaz da sua idade, “alto e por vezes bonito, de uma beleza que incutia confiança.” (p. 18) Durante este período de férias, Cécile vai desfrutando dos prazeres do sexo, mas também vai ganhando consciência de quão volátil pode ser o amor e os sentimentos dos adultos, olhando para o comportamento juvenil do pai, um rapaz que jamais crescerá, um rapaz que em nada difere do comportamento de Cyril, com a única diferença de que é pai.
      Cécile é de certa forma acusada por Anne, uma mulher de quarenta anos, de rara beleza, amante do pai, de não saber o que é o amor. Primeiro vem a ofensa e só mais tarde a compreensão face ao sentido do que é o amor e tudo o que com ele se relaciona.
      “Tem uma ideia simplista do amor. Não se trata de uma sucessão de sensações independentes umas das outras… (…) É algo muito diferente. (…) Há uma ternura constante, uma suavidade, uma falta… Coisas que não pode compreender.” (p. 48)
      “Pela minha parte, experimentava, para além do prazer físico e absolutamente real que me proporcionava, uma espécie de prazer intelectual ao reflectir sobre ele. As palavras «fazer amor» possuem uma sedução própria, muito verbal, quando isoladas do seu sentido. O verbo «fazer», material e positivo, unido à abstracção poética da palavra «amor», encantava-me, embora sempre me tive referido anteriormente a esta expressão sem o mínimo pudor e sem me dar conta do seu sabor. Agora, tornara-me pudica.” (pp. 128-129)
      Será o regresso a Paris que deixará Cécile num estado de profunda melancolia face à recordação do último Verão. As experiências vividas permitiram-na crescer e compreender algumas das vicissitudes do que é ser adulto, do tormento que pode por vezes sentir-se na tentativa em ser feliz. Aquele Verão na costa no Mediterrâneo ficará para sempre associado a Cyril, mas também a Anne, com um sabor agridoce, como tantas vezes a vida se nos apresenta. “Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom Dia, Tristeza.” (p. 174)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"O Que Dizem os Teus Olhos" de Florencia Bonelli

Sabia ao que ia quando peguei neste livro. A trilogia Cavalo de Fogo preencheu algumas horas de prazer dadas pelas muitas páginas, onde o romance entre Eliah e Matilda constituiram o foco principal. É daquelas trilogias que, mesmo nāo querendo, ficamos presos. A escrita é apaixonante e arrebatadora. Sonhamos e sonhamos e voltamos a sonhar com as peripécias dos dois personagens. Quando soube que este livro tratava do romance vivido pelos pais de Eliah, Francesca e Kamal, soube que o leria com a mesma voracidade que os anteriores. Podem ver as minhas opiniões aqui.

Quem nāo leu a trilogia Cavalo de Fogo pode pegar neste livro em primeiro lugar e, se gostar, lê-la de seguida. Creio que será melhor mesmo. Gostei bastante de conhecer a vida dos pais de Eliah muito embora tivesse achado que a trilogia, pelo seu volume de páginas, é muito mais completa e empolgante. Daí que tenha atribuído (apenas) 4 * a este livro.

Nāo posso deixar de falar nas personagens masculinas destes livros e nas suas semelhanças. Pai e filho, Kamal e Eliah, possuem muito em comum, sobretudo quanto ao carácter e personalidade. Ao ler agora sobre Kamal relembrei muitos aspectos, já esquecidos, de Eliah. Essa parecença, em termos de personalidade, fez-me pensar no quanto os pais deixam a sua marca nos filhos... Aspectos bons e maus, claro!

Se puderem, leiam estes livros desta autora. A escrita é muito envolvente e o romance vai fazer-vos sonhar! 

Terminado a 4 de Fevereiro de 2018

Estrelas: 4*

Sinopse
Argentina, 1961. Francesca de Gecco é uma jovem de 21 anos, filha de imigrantes italianos. Embora a sua família seja humilde, com a ajuda de um parente rico Francesca recebe uma educação primorosa e inicia uma brilhante carreira de jornalista. No entanto, vítima de uma terrível deceção amorosa, que somente o tempo e a distância podem curar, a jovem jornalista aceita um cargo de secretária na embaixada argentina em Genebra, cidade que será apenas a primeira etapa de uma jornada especial.
      A vida é generosa para com o coração de Francesca e oferece-lhe uma nova oportunidade para o amor: do outro lado do mundo, os palácios mais deslumbrantes do deserto árabe, conhecerá Kamal Al-Saud, um príncipe herdeiro da coroa saudita. Porém, no meio de tantos obstáculos, conseguirá Francesca ultrapassar as diferenças entre ela e Kamal e abraçar a felicidade?

Cris

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"Confissāo de um Assassino" de Joseph Roth

Quiz esperar mais uns dias do que o habitual para escrever esta opiniāo porque, por coincidência, o Jorge leu ao mesmo tempo e comentou aqui no blogue e nāo queria que a sua opiniāo me influenciasse. A bem da verdade, é quase impossível ler "o Jorge" e nāo ficar influenciada mas... aqui vai!

Nāo tenho muito mais a acrescentar à sua opiniāo (ver aqui!) mas quero dizer-vos que senti com grande profundidade todo o ambiente sinistro que o autor relata e em que o protagonista se move. Antigo agente da Okhrana (ver aqui!), polícia secreta do Czar Alexandre III da Rússia, Golubchik, considera-se filho bastardo do mesmo e conta a sua história muma noite, num restaurante algo sinistro, em Paris e onde exilados russos se reunem com frequência.

O ódio moveu a sua vida e é com ódio que conta a sua história. Uma história de vinganças que retrata bem o ambiente da época, onde a polícia secreta dispunha impunemente dos indivíduos. Golubchik, ele próprio, vitima e carrasco.

Livro pequeno mas de leitura lenta tal é o ambiente pesado que transparece nas suas páginas.

Terminado em 28 de Janeiro de 2018

Estrelas: 4*

Sinopse
Sentado ao balcão de um restaurante, ponto de encontro de emigrantes e exilados russos em Paris, Golubchik, antigo agente da Okhrana, a temível polícia secreta do Czar, entrega-se finalmente ao relato sofrido da sua vida. À medida que avança, copo após copo, noite dentro, os poucos clientes presentes veem-se embrenhados no fascinante percurso deste homem, desde a sua tentativa em reclamar o nome nobre do seu pai, ao encontro com uma personagem misteriosa que ensombrará para sempre o seu futuro, passando pela sua destrutiva história de amor com uma mulher e pelo seu ódio ao meio-irmão, o Príncipe.
      Confissão de um Assassino, romance até hoje inédito em Portugal, é, ao estilo dos grandes romances russos, simultaneamente uma poderosa análise da natureza humana e do poder hipnótico do Mal e um retrato vívido e agitado dos modos e dos acontecimentos mais marcantes de uma época, da Revolução bolchevique ao ambiente de Paris que antecede a Primeira Guerra Mundial.

Cris

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A Convidada Escolhe: "O Perfume - História de um Assassino"

Este é um livro perturbador. Há muito referido elogiosamente como um grande livro por diversas pessoas amigas, tinha imaginado algo de completamente diferente, certamente porque o livro era sempre referido simplesmente por “O Perfume”, sem o subtítulo “História de um Assasssino” o que é reforçado mal se lêem os primeiros parágrafos.
      A história passa-se no século XVIII, na França governada por Luís XV; Jean-Baptiste Grenouille é desde logo apresentado como uma personagem genial e abominável. Ele e os odores são as grandes persnagens do livro e é impressionante a capacidade do autor para nos fazer viver e sentir os odores mais variados e incríveis no decurso da obra. Nascido em Paris “a maior reserva de odores do mundo” – esta era então a cidade mais populosa do mundo e muito mal cheirosa, assim como os seus habitantes – Grenouille, sem carinho de mãe logo à nascença, reservado e solitário, era rotulado de atrasado apesar dos dotes excepcionais para distinguir cheiros, mas incapaz de se servir das palavras para os nomear, infundia medo e provocava repulsa. Grenouille (rã) desprovido de vontade própria, prisioneiro de odores que o atraem e de que não se consegue libertar senão quando os captura para si, não tem sentimentos, não gosta das pessoas, aliás o cheiro das pessoas enoja-o, é mais animal que humano e o autor ao longo do livro refere-se-lhe como sapo, uma carraça, gnomo, bruxo, aprendiz de feiticeiro ou mesmo feiticeiro, chegando a referir-se à sua fala como o coaxar de uma rã. Ele movimenta-se preferencialmente à noite e para isso não precisa de luz, basta-lhe farejar e seguir o seu olfacto.
      Mas com as suas experiências de apropriação e criação de perfumes, ele descobre que isso lhe dá poder. De ignorado passa a notado e essa sensação é-lhe agradável, pois percebe que o dom único que tem lhe permite controlar o mundo. “Quem controlava os odores, controlava o coração dos homens”. Quando se dirige para sul ele tinha tudo: dinheiro, odor e autoconfiança e uma pressa imensa de concluir o seu projecto.
      Vejo este romance sobre o perfume como uma metáfora. O perfume é o poder. E quem tem o poder, quem tem essa máscara consegue enganar todos à sua volta, consegue criar uma anestesia colectiva, consegue enfeitiçar e pôr a amar quem devia ser odiado. Afinal um criminoso que as pessoas imaginam como um diabo, não passa de um ser insignificante, indistinto, aparentemente “normal”!
      A orgia colectiva que inocenta o criminoso é também ela que leva os humanos a agirem como canibais, pelo que o romance leva a que se conclua que os seres humanos são capazes de tudo, mesmo o mais impensável.
      Como acima referi um livro muito bem escrito e muito perturbador. Grenouille um psicopata, frio, calculista, desprovido de sentimentos, simplesmente repugnante.

Fevereiro de 2018
Almerinda Bento

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Resultado do Passatempo Temas e Debates - " A Arte da Boa Vida"

O blogue agradece à editora Temas e Debates a oportunidade de realizar este passatempo que vai, de certeza, fazer feliz um seu seguidor. Neste caso uma seguidora...

Assim, anuncio de seguida a premiada, esperando que ela aproveite tanto quanto eu este livrinho ("A Arte da Boa Vida" de Rolf Dobelli) que vive agora na minha mesa de cabeceira! Com 264 participaçōes válidas foi sorteado o nº 87 pertencente a:

- Palmira Estalagem de Póvoa de Santa Iria.

Parabéns Palmira! Enviarei o livro ainda esta semana!

Cris

Resultado do passatempo Arte Plural - "Receitas com Paixāo"

Dado que tinha em duplicado o livro da Márcia "Receitas Com Paixāo" da editora Arte Plural, realizei este passatempo no blogue. Anuncio agora a vencedora:

- Nº 137 - Fernanda Guia de Lisboa

Parabéns Fernanda! Espero que gostes e aproveites bem as receitas e dicas maravilhosas da Márcia! Vou enviar o livro ainda esta semana!

Cris

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Ao Domingo com... Rui Conceição Silva

Olá.

Chamo-me Rui Conceição Silva e sou um escritor de romances tardio.

E tudo começou, infelizmente, com o suicídio do meu amado irmão TóZé, em Outubro de 2012.

Éramos muito chegados, ele era o meu confidente, o meu melhor amigo e a pessoa que mais me fazia rir. Tínhamos apenas catorze meses de diferença, dizíamos até que éramos gémeos com catorze meses de atraso, e a minha vida e as minhas vivências confundiam-se com as dele, tal a amizade que nos unia.

Com o seu suicídio, soçobrei seriamente, tendo de recorrer a um psiquiatra, que me tem ajudado a seguir em frente, embora com esta dor latejante, com esta ferida que nunca fechará.

E ficou um sentimento de culpa, daquilo que poderia ter dito, daquilo que poderia ter feito.

Para expurgar um pouco desse sentimento, comecei a escrever o "Quando o Sol Brilha", que retrata a dor que se sente quando se perde alguém que tanto amamos. Foi, na escrita desse romance, que encontrei palavras que me salvaram, como se, em cada linha que escrevesse, me fosse redimindo, encontrando a vontade de seguir em frente, mesmo que ferido.

Nas páginas que fui escrevendo, redescobri alguma esperança, uma crença na eternidade, que me levou a acabar o livro e a encontrar nele uma absolvição.

Sei, pelo que os leitores me dizem, que a minha escrita é simples, mas que o faço com uma prosa poética e emocional. E talvez seja essa a maior herança do meu irmão TóZé, a de me ter sempre transmitindo muito humanismo, no modo como olhamos uns pelos outros.

Hoje, não me perguntem porquê, acredito que a vida não acaba aqui, quando fechamos os olhos e os que nos amam nos choram. Que tem de existir uma eternidade que justifique tudo o que fomos construindo na alma, que, quanto mais simples, mais bela se torna. Que é na simplicidade que compreendemos e vivemos melhor o amor, que será sempre o maior tesouro das nossas vidas.
Sim, o "Quando o Sol Brilha" talvez seja o meu testamento sobre o amor, sobre todo o amor que recebemos e distribuimos, quando éramos simples e tudo fazíamos sem notar, dando amor naturalmente, como quando éramos crianças e distribuíamos ternuras.

Entretanto, já se passaram cinco anos e quatro meses desde a morte do meu irmão.

Com algum esforço emocional e mental, escrevi um novo romance, o "Dei o teu Nome às Estrelas", que, sem ter a carga emotiva do meu primeiro romance, é talvez mais simples no modo como fala de amizade e de amor. E talvez a vida seja mesmo assim, simples de explicar, quando amamos sem limites. Como o protagonista do livro, que encontra o amor e a ele tudo dedica, deixando que as maiores alegrias e as maiores tristezas tomem conta de si, como acontece com quem ama verdadeiramente.

E, se é na amizade que nos sustentamos, no ombro amigo, na palavra sincera, nas pequenas coisas que nos fazem rir e brincar, é no amor que justificamos a nossa vida, como se um grande amor estivesse sempre à nossa espera, exigindo apenas que nos entreguemos a ele sem pedir nada em troca.

Porque o verdadeiro amor é inequívoco, não deixa dúvidas sobre a sua magnitude. E não adianta explicá-lo, pois é uma estrela que nos guia, mesmo que a caminho da perdição.

À primeira vista, parecem romances muito diferentes.

Mas não o são, pois ambos reflectem a minha visão humanista sobre os acasos das nossas vidas. Que a vida não pode ser programada, que não adianta sequer imaginar como será ela daqui a uns anos. Pois há sempre a próxima curva, que poderá mudar o nosso rumo, neste caminho a que chamamos destino.

Hoje, e depois de escrever o meu segundo romance, mais me convenço que a beleza da vida está no segredo dos amanhãs, no facto de não podermos adivinhá-la.

Como vai acontecendo com o meu terceiro romance, que já ando a escrever por aí, e que não imagino como acabará. Porque escrever um romance talvez seja isto, a viagem sem destino, em que apenas sabemos o ponto de partida.

E não é esse o resumo das nossas vidas? O de sermos caminhantes em busca de nós?

P.S.: Um bem-haja muito especial e um beijo de carinho para a Cristina Delgado, que me deu a honra de me convidar para escrever este singelo texto no seu bonito blogue!"

Rui Conceição Silva

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Na minha caixa de correio

 

 
Oferta das editoras parceiras:

- Descomplica da editora Manuscrito
- A Magia do Silêncio da editora Arena
- Apagar Estocolmo da editora Suma de Letras
- O Filho de Noé da editora Marcador

Com registos diferentes, estou verdadeiramente interessada em saltar para dentro destes livros! Ó Tempo, onde andas tu?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Escolha do Jorge: “Billy Budd, Marinheiro”

 
“Billy Budd, Marinheiro”, obra de Herman Melville (1819-1891) publicada postumamente tornou-se, a par de “Moby Dick” e “Bartleby” noutra das grandes referências do escritor norte-americano, sagrando-o como uma das figuras incontornáveis da literatura contemporânea.
      “Billy Budd, o Marinheiro” é uma narrativa breve que nos remete para o ano de 1797, num navio de guerra britânico, o Bellipotent, que saía de Inglaterra para se juntar à frota no Mediterrâneo.
Billy Budd, obrigado a alistar-se no Bellipotent, rapidamente chamou a atenção de toda a tripulação tendo em consideração os seus atributos estéticos, sendo um indivíduo de rara beleza, reflectindo, pelas descrições ao longo da obra, como uma espécie de deus grego. A imagem fresca e jovem de Billy Budd levaram a que fosse habitualmente apelidado de Marinheiro Bem Parecido.
      Mas John Claggart, o mestre-de-armas, desenvolveu uma inveja profunda face a Billy Budd, e ainda que demonstrasse por este alguma simpatia, desenvolveu uma artimanha do mais mesquinho que pode existir, na tentativa de incriminar o marinheiro como estando a fomentar um motim entre a tripulação à semelhança daquilo que já tinha ocorrido na Primavera desse ano, em 1797, que ficou conhecido por a “Grande Revolta”, na baía de Nore.
      No entanto, a atitude de John Claggart é ainda mais complexa na medida em que a inveja demonstrada por Billy Budd nada mais é do que a atracção que sente pelo marinheiro e numa tentativa de ocultação da sua tendência, seria preferível eliminar o objecto do seu desejo sem atrair as atenções face à sua natureza.
      “É habitual que a mais subtil depravação emparceire com a invulgar prudência, por tudo ter de ocultar.” (p. 76)
      “A inveja de Claggart batia mais fundo. Se olhava de esguelha para o bom ar de Billy Budd, para a sua jovial saúde e a forma franca como gozava a vida, fazia-o por ela seguir a par com uma natureza que nunca tinha querido na sua simplicidade o mal, nem sofrera o retorno da sua mordidela de serpente; Claggart sentia isto de uma forma magnética." (p. 73)
      De toda a tripulação, John Claggart era o único elemento que olhando para Billy Budd conseguia perceber que se tratava de uma espécie rara de homem, com atributos (quase) divinos, em que uma mesma pessoa constituía em si mesma a fusão entre a beleza e o bem e a justiça ou a clara harmonia entre a estética e a ética.
      “E esta perspicácia só intensificava a paixão, que assumia formas variadas e secretas, por vezes a do cínico desdém, o desdém pela inocência – porque ele mais não era do que inocência! Sob um ponto de vista estético via-lhe porém o encanto, a corajosa desenvoltura do temperamento, e partilhá-los-ia de boa vontade se não fosse o desespero que eles lhe causavam.” (p. 73)
      John Claggart destila aos poucos o seu ódio que (in)directamente minava e corroía por dentro a sua pessoa, acabando por fazer uma falsa acusação relativa a Billy Budd junto do capitão Vere, responsável pelo navio. Parco em palavras e com certa deficiência na voz, Billy Budd não se consegue defender pelo uso da palavra, desferindo então um golpe mortal no acusador, o mestre-de-armas.
      Face ao sucedido, há a necessidade de aplicar a lei, a lei marcial que é o reflexo do cumprimento da lei natural face à evidência dos factos. O homicida será punido através do enforcamento. Estamos, pois, perante a complexidade da aplicação da justiça na medida em que a inocência do Marinheiro Bem Parecido se transformou em culpado.
      Desta forma, o navio de guerra Bellipotent é comparado à sociedade em que vivemos em que não raras vezes os inocentes não têm voz para fazer face ao cumprimento da justiça em seu benefício. É certo que atendendo à evidência dos factos, a justiça foi cumprida, mas os problemas de consciência perduraram nos pensamentos do capitão Vere que, no leito da morte, aludia ao sucedido num continuado de sons quase ininteligíveis “Billy Budd, Billy Budd, Billy Budd…”
      Billy Budd faz a apologia do Bem ou encarna a figura de Jesus em oposição a John Claggart que encarna o Mal ou o Diabo. Quanto ao capitão Vere, este lavou as suas mãos tal como Pôncio Pilatos.

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Novidade Temas e Debates

A Arte da Boa Vida
de Rolf Dobelli
Como devemos viver? O que faz uma vida boa? Que papel desempenha o destino? Será melhor aspirar à felicidade ou esquivar-se à infelicidade? Muitos fazem estas perguntas, mas não encontram resposta. Muitos procuram um caminho para uma boa vida. Mas tal não existe. O mundo é demasiado complicado. Existem muitos caminhos surpreendentes para a felicidade. Rolf Dobelli, cujos livros seduzem milhões de leitores, mostra-nos os 52 melhores caminhos: há modelos que nos podem ajudar a ver o mundo de uma maneira nova e a compreendê-lo. São mais importantes do que o dinheiro, os relacionamentos e a inteligência.
Descubra o seu caminho pessoal para a felicidade!