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domingo, 24 de dezembro de 2017

Ao Domingo com... Marlene Ferraz


QUANDO O SOFRIMENTO É MATÉRIA DE FABRICO

Provavelmente não haverá uma explicação lógica mas os domingos avivam muito as (minhas) memórias da infância. A mesa comprida, numa madeira antiga, com o chá de ervas. O vizinho do barraco de zinco num fato apertado com as crias em laçarotes e rendas. As mulheres de avental a governarem o abreviado (infinito) mundo que é uma casa. E o sino a avisar as horas. E as mortes. Seria uma criança muito metida em contemplações, incomodada com o sofrimento evitável nos homens e nos bichos: ficava exageradamente comovida quando o destino me apresentava um pássaro ferido por um chumbo, uma borboleta com as asas gastas pela curiosidade dos dedos ou um cão tão magro que poderia contar-se os ossos. E toda a violência entre homens e homens. As crianças sujas, com piolhos e roupas maiores que o corpo. A mulher de cabelo curto, faca afiada e coração partido. O velho enforcado num simples fio, depois de tantos lamentos e avisos. Os livros, companheiros de tempo interminável, resgatavam-me para outras realidades, também duras, improváveis, mas carregadas de ilusão e esperança. Como um escafandro. Ou um outro compartimento de oxigénio. Conviver com o sofrimento pede uma carga suficiente de ilusão, até o entendermos, também, como matéria de fabrico. Poemas. Contos. Danças. Leis. Retratos. Orações. E uma continuada lista de usabilidade. O sofrimento (e o medo do sofrimento) acaba por nos moldar a cabeça (e o coração) e é provável que nos alinhave mais do que as (esperadas) alegrias: e, mesmo depois de tantas tragédias contadas já nos teatros gregos, ainda me espanta esta tendência para camuflar a nossa vulnerabilidade, como se a tristeza ou a desilusão fosse coisa medíocre e apenas possível em criaturas fracas e dispensáveis. É como alinhar um riso sempre que nos apontam uma máquina de retratos: raramente aceitamos um disparo sem estarmos (artificialmente) bem compostos. Tomo, agora, um punhado de ervas secas e penso: talvez a escrita seja isto, um exercício de compor palavras numa ordem particular, com musicalidade e simbolismo, mas também a criação de homens, mulheres e bichos, com as suas imperfeições e fragilidades, sem a (falsa) intenção de parecermos perfeitos por fora apesar dos buracos de vulnerabilidade por dentro. O (meu) ofício da psicologia também aponta para esta transparência, numa aceitação incondicional do outro (e de mim), com o sofrimento a assumir-se mais como matéria de apreciação e reinvenção para ensaiar novas
formas de ver a realidade que incomoda (como se tivéssemos nas mãos um caleidoscópio: os tais caleidoscópios que usamos em criança e que tanto faltam quando somos maiores). Também neste novo livro, As Falsas Memórias de Manoel Luz, os apontamentos de infância, as fragilidades da condição humana, a complexidade das relações entre uns e outros, a bipolaridade (ligada) entre a emoção e a razão, o bem e o mal, o capitalismo e a sustentabilidade social, o amor e o medo, num processo continuado de queda e renovação. Assim as flores. E as borboletas. Até os livros. E os redutores mecânicos da infelicidade imposta, engenhos minuciosamente fabricados pelo rapaz com nome de elemento químico (Hélio) para reduzir o sofrimento e, num esforço de aplicabilidade e economia, transformar as partículas infelizes em matéria útil. Fervo água numa chaleira, espreito pelo vidro. Hoje é domingo. E já com um chá de ervas nas mãos, entre aromas e vapores, mais memórias se avivam. A camisa bem vincada do avô operário. O cão preso a um metro de corrente. O homem sem pernas da rua de cima. Poderia até fechar as pálpebras e viajar, como nos livros. O chá amargo arde ainda na boca. E vem a pergunta: o que somos senão depósitos de memórias? É urgente, então, sabermos eleger as principais para (re)fazer as nossas (voláteis) biografias.

Marlene Ferraz

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