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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A Escolha do Jorge: "Natália"


“Naquela altura, era preciso ter talento para não morrer. Não cabíamos nas cuecas nem nos nossos sonhos, caminhávamos sem olhar para trás, fumávamos como se fosse um acto de lucidez e bebíamos café para afugentar o medo.” (p. 9) 

Novela de culto da literatura sul-americana, “Natalia” constitui a obra emblemática do chileno Pablo Azócar (n. 1959), que rapidamente se tornou um sucesso, após a sua publicação, em 1990.
      Tendo Santiago do Chile como pano de fundo, “Natalia” é um monólogo por parte do narrador com pretensão a escritor, que vai registando as suas experiências a nível sexual
com um infindável número de mulheres que surgem na sua vida.
      Sem nunca cair no brejeiro e sempre com muito estilo e muita classe, o narrador apresenta-nos aquela que é a mulher das mulheres por excelência. É impossível não ficar rendido às descrições sobre Natalia, os seus atributos físicos, o seu desempenho sexual. Natalia entra e sai da vida do protagonista porque Natalia é sinónimo de mulher livre e bela, a emancipação em estado puro, não sendo mulher para um só homem e com muito amor para distribuir, seja homem, seja mulher. Amar Natalia é entrar em puro transe, difícil de dosear, daí a necessidade do afastamento após a capitulação dos corpos na sequência da urgência das carnes, do desejo, do amor e da beleza.
      “Nem nos momentos de fúria eu poderia negar os talentos da Natalia. A sua criatividade era a antítese do tipo que aprende as posições do Kamasutra e decide pô-las em prática. Quando se punha em acção, era como ir de smoking e havaianas ao enterro de um humorista no desemprego para lhe pedir dinheiro emprestado. A Natalia deixava-se ir e partia-se em bocados que era preciso apanhar pela casa toda. (…) Precisávamos de estar sempre a inventar, mas era por isso que nos sentíamos em santidade, e tínhamos o Corão, sete rosários e um catálogo de extrema-unção.” (pp. 41-42)
      É neste registo humorístico e metafórico que Pablo Azócar presenteia tantas vezes o leitor ao longo da obra, tornando-o viciado nas letras e nas frases, nas imagens e nos desejos, tal qual a vulnerabilidade do protagonista perante Natalia.
      Natalia é o centro das atenções junto de todos os homens, mas também das mulheres. O protagonista chega a partilhar Natalia com Lucía, uma das mulheres com quem viveu e amou e que também amava Natalia cujo amor e desejo era igualmente correspondido por esta. Natalia era um mistério de mulher em si mesma, não só perante a inevitabilidade das evidências, mas também nos períodos em que está ausente.
      O protagonista, um verdadeiro pinga-amor por natureza, amou tantas, mas tantas mulheres, aquelas que ele procurava e aquelas que o procuravam, sempre durante a ausência de Natalia, e em ambas as situações, acabavam por entrar na sua vida, na medida em que “Santiago era uma festa e porque tudo aquilo não era a glória, mas parecia muito.” (pp. 125-126) Há momentos alucinantes e vertiginosos e de uma eloquência fora do comum em Natalia a que o leitor não fica indiferente, como a passagem em jeito de conclusão sobre o tempo em que desvendou os mistérios dos corpos de Alejandra e de Antonia. “A verdade é que cheguei a amar ambas mais do que devia, nada a fazer. Houve uma altura em que me fechava no quarto com elas quase todos os dias, e, no meio de gritos ordinários, éramos capazes de agarrar o mundo com toda a força e cortá-lo aos bocados com um berbequim e psicopatia em doses razoáveis, porque, no fim de contas, tudo aquilo mais não era que palavras, frases mutiladas, pervertidas, um estúpido jogo de crianças.” (pp. 123-124)
      O narrador procura assim saciar o seu desejo através das muitas viagens pelos corpos das mulheres que se cruzam na sua vida, mas é Natalia quem sempre espera, porque sabe que no fundo, Natalia regressa sempre ao aconchego dos seus braços, do seu lar, até se repetirem doses industriais do mais puro êxtase, num qualquer novo capítulo das suas vidas cruzadas.
      “Natalia” apresenta-se-nos vertiginosa e apaixonante através de uma leitura também viciante para o leitor, sendo um daqueles livros que dificilmente passará ao lado, bem pelo contrário, até porque não será de estranhar a vontade de reler a obra tal como Natalia se tornou o doce vício do narrador.
      Com uma tradução primorosa a cargo de Maria Manuel Viana, “Natalia” constitui uma das grandes surpresas neste final de ano, sendo a primeira obra de Pablo Azócar a ser publicada no catálogo da Teodolito.

Texto da autoria de Jorge Navarro

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