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domingo, 8 de outubro de 2017

Ao Domingo com... Carlos Vale Ferraz

 

O meu escrever

Escrever é refletir sobre a vida. É o que tenho tentado nos meus romances. O mais recente chama-se A Última Viúva de África, nele falo, reflito sobre a descolonização, as independências das antigas colónias europeias, dos sonhos dos brancos que lá queriam permanecer.
      Neste romance faço-o através de um narrador que se defronta com um problema de identidade. Teve um passado que não corresponde ao que aqueles com quem viveu a maior parte da vida lhe conheceram. Envolveu-se em aventuras ao lado dos que se batiam por ideais que contrariavam os que ganhou fama de defender. Tinha o direito a guardar para si esse passado, essa identidade? Tinha o direito de viver com uma máscara, como as que as personagens do teatro romano utilizavam nas representações?
      Os gregos utilizavam a palavra metanóia para significar a mudança do pensamento num novo modo de viver. Esta personagem coloca a questão do
direito e dos limites da mudança ao longo da vida. Somos os mesmos enquanto jovens e enquanto velhos? Pode alguém ser quem não é. E pode ser quem não foi? A resposta que temos no subconsciente, a do senso comum, é a de que não pode. Partimos do princípio que temos uma matriz, uma marca de água como as notas e que não a podemos falsificar. É, julgo, uma falácia. Não só podemos ser quem não somos, como nunca somos quem parecemos. Somos como a madeira verde, não constituímos uma totalidade acabada.
      A Última Viúva de África aponta algumas das causas das alterações que sofremos. Em primeiro lugar a perceção do tempo, o uso que dele fazemos, a forma como dispomos dele. O narrador conclui que o depois não é diferente do antes, o antes não justificou, nem explicou o depois. A história não é portadora de um sentido, não existe o sentido da história. Os historiadores e os escritores procuram lugares de memória para fundamentarem as suas narrativas, mas o que procuram, ou que encontram na acumulação de testemunhos, de indícios, de imagens é a diferença fora do tempo, refletem nas suas obras o que os homens e as mulheres são à luz do que eles já não são.
      Escrevo sobre o tempo, sobre a forma como o passado, o passado das personagens se transforma em história e a história individual passa a pertencer à história. Vivi uma guerra e uma revolução, mas não pretendo que os que pertencem a tempos mais recentes me vejam como um monumento da história. Talvez como um enólogo, que descreve como se produziram vinhos com determinadas qualidades e não outras. Tenho a consciência de que, como autor, ao criar personagens, ou ao descrevê-las, digo mais sobre mim do que sobre elas.
      O meu primeiro romance chamou-se Nó Cego e refletia a ideia de que jamais desataríamos as amarras que nos prendiam a um passado sem futuro, a guerra colonial. Dei aos meus livros títulos como De Passo Trocado, ou Os Lobos Não Usam Coleira para expressar a marginalidade e a solidão do percurso das personagens, do meu percurso. Contestei e ridicularizei os poderosos e os ambiciosos chamando-lhes Flamingos Dourados, percorri o último milénio com os grandes vencidos da história, do árabe Almansor aos estudantes do Maio de 68, do papa Silvestre aos europeus derrotados na Indochina e em África, dos utópicos crentes na felicidade na Terra até aos inquisidores mais perversos. A essa descrição de vencidos da história dei o nome de Livro das Maravilhas. Em a Estrada dos Silêncios, o meu penúltimo romance, defrontei-me com a ilusão do progresso, associado às obras que nos permitem ir mais depressa de uma ponta à outra da Europa sem ganharmos nem conhecimento, nem paz, nem sabedoria. Um romance sobre a estupidez de um doente mental que sonhou ser imperador da Europa, dominar a Europa para afirmar a sua grandeza: o sonho da insensata loucura de Napoleão, o general que decretou um bloqueio naval sem ter uma esquadra, o homem que invadiu Portugal para defrontar os ingleses, o seu inimigo principal, e não veio comandar as tropas nas batalhas decisivas!
      O mundo continuou indiferente aos homens e às suas loucuras, como alguém disse, os tubarões continuaram a comer os cardumes. Escrevi bastante sobre África, os últimos romances sobre europeus que de lá vieram pediram: Fala-me de África. Falei de África e do Portugal que Salazar criou à volta da ideia de um império africano em A Mulher do Legionário. A propósito de mulheres, a última viúva de África é uma portuguesa que viveu os violentos momentos iniciais da independência do Congo Belga e, como uma vidente, prevê os acontecimentos que alastrarão às colónias portuguesas de Angola e Moçambique. Ela será a mãe dos mercenários que serão mais uma peça no jogo de interesses por detrás das independências das colónias europeias.
      A conclusão de tudo o que escrevi e do muito que já vivi talvez possa ser resumida no título de um dos meus romances: Basta-me Viver. Viver é, de facto, o que todos procuramos e aquilo a que se resume a nossa existência. Os romances ajudam a viver.

Carlos Vale Ferraz

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