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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A Escolha do Jorge: "As Últimas Testemunhas"

“A memória da criança guarda apenas o medo ou algo de bom.” (p. 216)

“As Últimas Testemunhas” de Svetlana Alexievich (n. 1948), Prémio Nobel de Literatura em 2015, constitui uma das obras mais aguardadas neste final de ano no mercado editorial português.
      À semelhança das suas obras anteriormente publicadas, “As Últimas Testemunhas” apresenta-se como um coro de cem vozes, outrora de crianças, que agora prestam testemunho sobre o que viram, sentiram, mas sobretudo o que perderam no decurso da 2ª Guerra Mundial. A ofensiva militar, que assolou territórios da então URSS, surge na sequência de a Alemanha nazi ter quebrado o Pacto de Não-Agressão com a URSS, e durante 1941 e 1944, foram inúmeras as
perdas humanas, vítimas da loucura e crueldade do homem.
      O estilo de Svetlana Alexievich mantém-se inalterado. Quem já teve oportunidade de ler outras obras da escritora bielorrussa, rapidamente identifica o seu registo que tem como missão dar voz a quem não a tem, face a um determinado assunto fracturante e que, em certa medida, do ponto de vista do registo historiográfico, é impossível que aconteça, por este ser de carácter científico.
      Passadas décadas do final do conflito militar, Svetlana Alexievich ouviu inúmeras pessoas que eram crianças durante a guerra. Ouviu e registou as suas memórias. Ou o que resta delas. Impressões, dados pouco concretos, quase sombras em certos casos, mas noutros, as recordações dolorosas face à perda de bens, dos pais e da infância, no fundo, estão ainda muito presentes, de forma vincada no pensamento e discernimento destas pessoas, ao ponto de as ter marcado para toda a vida. “A guerra demorou a terminar… Contam quatro anos de tiros… E para esquecê-la, quantos foram precisos?” (p. 268)
      O início de cada capítulo tem sempre a introdução alusiva ao interlocutor, com o nome e a idade à época da guerra, e também, a profissão que exercem (ou exerceram). E em função disso, compreendemos os estudos e a formação que os vários intervenientes fizeram durante a sua formação, reflectindo-se a mesma no discurso utilizado.
      Em todo o caso, há dois aspectos que parecem unir o discurso utilizado por esta centena de interlocutores: a importância dos livros no contexto familiar e o patriotismo, mesmo em tenra idade, no contexto da ideologia da URSS.
      Outros aspectos que constituem um elo de ligação em toda a obra é, sem dúvida, a forte ligação familiar entre pais e filhos. São inúmeros os relatos das então crianças em que transmitem no decurso dos seus testemunhos esta ideia de união familiar, para lá de qualquer ideologia política.
      A necessidade destas crianças em ter e estar com alguém que, mesmo nos orfanatos quando já tinham perdido os pais ou quando nada sabiam destes, “adoptavam-se” uns aos outros face à necessidade de pertencerem e serem uns dos outros. Esta ideia várias vezes enunciada reflecte a ideia em si mesma de sobrevivência e do facto de o ser humano apenas se conseguir realizar e sentir verdadeiramente humano enquanto ser social. Pena que estas pessoas o tenham aprendido e sentido da pior das maneiras, pela via da guerra e da perda de entes queridos.
      O mesmo acontecia quando estas crianças sem pais eram adoptadas por vizinhos ou mesmo por desconhecidos. As descrições face a esta ideia de necessidade em que todos precisam de uma família e de serem protegidos chega a ser comovente quando da leitura de alguns testemunhos.
      São estas ideias, pensamentos, frases soltas por vezes, que compreendemos que não podem integrar um registo historiográfico, ainda que paralelo, ainda que reflictam toda uma realidade, porém, Svetlana Alexievich consegue trazer ao público este universo de vozes que têm algo a dizer ao mundo, dar-lhes voz, como se dissessem “estamos aqui” ou “vivemos isto” ou ainda “aconteceu daquela maneira”. Frases como “Sou um homem sem infância, em vez da infância, tive a guerra.” (p. 47) ou “Mas nunca sou capaz de ser feliz até ao fim. (…) Temo a felicidade” (p. 70) são pensamentos de uma tal densidade à qual não conseguimos ficar indiferentes.
      Ler Svetlana Alexievich é compreender um determinado processo histórico ou conjuntura. Ao passo que a História recorre a um discurso que pretende elevar-se a científico, pretendendo a compreensão do sucedido, baseando-se em fontes históricas, para o efeito, o trabalho apresentado pela escritora bielorrussa enriquece a História com voz e sentimentos, contribuindo, também, para a compreensão da realidade histórica. Ambas funcionam em certa medida como as duas faces da mesma moeda.
      O ódio aos alemães era notório, mesmo entre as crianças, porque foram forçadas a perceber da pior maneira o que é perder a família. Assim, o olhar das crianças alternava diversas vezes entre o deslumbramento face à incompreensão do que estava a acontecer e a consciência de ódio perante o inimigo. “Vi de perto o primeiro alemão… Alto, de olhos azuis. Admirei-o muito. Tão bonito, mas mata. (p. 109) No inverno deslizámos várias vezes sobre cadáveres de alemães congelados que ainda continuavam a aparecer fora da cidade. Deslizávamos como se fossem trenós. Dávamos pontapés aos mortos. Saltávamos em cima deles. Continuávamos a odiá-los.” (p. 150)
      E esta obra de Svetlana Alexievich pode resumir-se com as últimas palavras, estrategicamente selecionadas para o final, sobre a consciência que os próprios intervenientes têm sobre a necessidade das suas memórias serem escritas para que não caiam no vazio, no esquecimento das gerações vindouras e, no fundo, da própria História. “Alcançámos aquela linha… aquele limiar… Somos as últimas testemunhas. O nosso tempo está a chegar ao fim. Devemos falar… As nossas palavras serão as últimas…” (p. 309).

Texto da autoria de Jorge Navarro

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