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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A Escolha do Jorge: O Real Nunca Existiu

A proposta de leitura desta semana incide no ensaio "O real nunca existiu – O princípio de Dom Quixote – Uma contra-história da literatura" do francês Michel Onfray (n. 1956) publicado pela Cavalo de Ferro recentemente.
Michel Onfray analisa sob várias perspetivas "Dom Quixote de la Mancha", o romance de cavalaria de Miguel Cervantes (1547-1616) publicado em duas partes, em 1605 e em 1615, conseguindo mesmo uma obra magistral de interesse literário, histórico, político, filosófico (lógica, ética e estética), religioso e psicológico.
Publicado no início do século XVI, "Dom Quixote de la Mancha" escapa às garras da Inquisição à semelhança do próprio Miguel Cervantes que, de acordo com os padrões morais do seu tempo, levava uma vida que poderíamos de apelidar de "bon vivant" suscitando ainda hoje muitas questões às quais não temos resposta, ficando, pois, um vazio enigmático. Segundo Michel Onfray, "A vida de Cervantes é um romance" (p. 137) tendo transportado para a obra todos os ingredientes de um grande romance, tais como, "o amor e a morte, a guerra e os combates, o sangue e as lágrimas, a ilusão e a realidade, o desejo e as mulheres, a mentira e a verdade, o ideal e o concreto, o vício e a virtude, a reflexão e a acção, a literatura e o mundo, as duquesas e as taberneiras, os cavaleiros e os escudeiros, os cavalos e os burros (…)." (p. 137)
Mas o que tem de grandioso e de único "Dom Quixote de la Mancha" que rapidamente se tornou um sucesso em Espanha com seis edições no ano em que foi publicado, tornando-se não só numa das obras de referência da Idade Moderna sobrevivendo incólume até ao século XX,I colocando o seu autor Miguel Cervantes entre os grandes nomes da literatura universal?
Michel Onfray alude ao longo de todo o ensaio para o mecanismo da denegação como o ponto-chave desta obra identificado como o princípio de Dom Quixote (subtítulo do ensaio). Mais do que negação, o conceito de denegação é entendido como a recusa em aceitar o real, daí a necessidade em criar uma ilusão convertida em ideal ou verdade pela qual vale a pena debater-se. Compreende-se assim que Dom Quixote manipula a realidade que não consegue encarar de frente, transferindo, por exemplo, os moinhos de vento nos seus reais e ferozes inimigos e assim se "o real mata quem quer que o encare verdadeiramente de frente; a ilusão permite evitar o encontro negativo, que é o encontro com aquilo que é." (p. 154)
Como Dom Quixote não vê o mundo como as outras pessoas (representadas pelo personagem Sancho Pança), torna-se obstinado insistindo na sua denegação (substituição do real por uma ilusão ou mentira que pretende a custo manter como verdadeira), colocando, em consequência dessa atitude, duas faces da mesma moeda, a realidade e a ilusão que funcionam como a verdade e a mentira, a lucidez e a doença do foro psiquiátrico. De acordo com esta perspetiva, ambas as posições são válidas e do ponto de vista da lógica, ambas são verdadeiras, o que nos permite concluir que, afinal, o real nunca existiu porque tem de ser qualquer outra coisa para lá destas duas perspetivas ou posições.
A essência de "Dom Quixote de la Mancha" é alimentada por duas visões diferentes da realidade, tendo em consideração que Dom Quixote vê aquilo em que acredita em oposição a Sancho Pança que acredita naquilo que vê.
Assim, Dom Quixote nega a sua própria denegação à semelhança do louco que ele próprio encarna mas que não se reconhece enquanto tal, pois loucos são os outros. Dom Quixote considera-se são apesar de ser verdadeiramente louco.
Michel Onfray explica-nos esta transferência de perspetiva à semelhança das brincadeiras de criança que ouvimos frequentemente "Não fui eu, foi ele…". Citando o autor: "Mas porque é que o denegador nega o que ocorreu? Porque o real remete sobre ele mesmo uma imagem que não corresponde à ideia que tem de si mesmo. Dom Quixote imagina-se cavaleiro e vive a existência de uma segunda punhalada ontológica: fracassa, falha, é agredido, sovado, troçado, riem-se dele, batem-lhe, divertem-se à sua custa, troçam dele à sua passagem, mas ele pretende ser um novo Amadis, realizando façanhas e altos feitos, cheio de bravura e grandeza, com coragem, de modo a efectuar grandes combates vitoriosos. Imagina-se uma estrela; é um verme." (p. 120)
Seguindo o pensamento de Michel Onfray, compreendemos que, em certa medida, a figura de Dom Quixote é o representante de todos aqueles que padecem de doenças do foro psiquiátrico como os loucos, neuróticos, crentes e até psicopatas, mas também de ideólogos, ditadores e obsessivos. Este personagem que atravessa o rio do tempo é simultaneamente alguém que se afigura num limbo entre a ideologia e a loucura, deambulando, mediante a tendência e o apoio de terceiros, entre o pobre coitado e o assassino psicopata que condena à morte milhares (ou mesmo milhões) de pessoas como aconteceu durante a 2ª Guerra Mundial.
Já Sancho Pança é o representante das pessoas "terra-a-terra", dos incrédulos ou dos que acreditam somente naquilo que veem, na gente que precisa do trabalho para viver, mas também daqueles que, de certa forma, também procuram algum divertimento, preenchendo as suas vidas com algum prazer.
Michel Onfray consegue através do ensaio "O real nunca existiu" ligar os vários saberes científicos através do personagem Dom Quixote que se tornou numa figura intemporal pertencente ao imaginário de todas as pessoas independentemente de não terem lido a obra. "O real nunca existiu" contribui também para a compreensão do homem na sua relação com o mundo e com a sociedade em si mesma. Numa época em que os consultórios de psicólogos e psiquiatras se enchem, Dom Quixote representa cada vez mais a loucura em que a sociedade contemporânea encarnou face aos seus múltiplos desafios e tormentas.
Somente no leito da morte, Dom Quixote "toma a sua cama pela sua cama" (p. 137) porque já perdeu o combate e talvez porque tome consciência de que o homem tem somente uma certeza: a morte que inevitavelmente o virá buscar. A qualquer momento.

Texto da autoria de Jorge Navarro



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