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quinta-feira, 1 de junho de 2017

A escolha do Jorge: "A Mulher é uma Ilha"


“A Mulher é uma Ilha” é a mais recente publicação da islandesa Auður Ava Ólafsdóttir (n. 1958) em língua portuguesa depois de “Rosa Candida”, publicado em 2014.

Partindo de uma mesma fórmula em que as histórias se vão encadeando sem que o leitor perceba em concreto onde vão levar, onde se mistura particularidades do quotidiano e vivências muito próprias da Islândia, o país-ilha, que pertencendo à Europa e fazendo parte dos países do norte do continente, tem um modo de vida muito próprio.

Tendo como centro da narrativa uma mulher na casa dos trinta anos de quem nunca sabemos o nome, conhecedora de várias línguas estrangeiras, ganhando a vida como tradutora para várias entidades e empresas, tem uma vida muito peculiar, uma forma de pensamento que lhe é única. Na verdade, parece ser comum Auður Ava Ólafsdóttir, a autora, escolher como personagens principais, pessoas com traços de personalidade bastante vincados, mas que se destacam ao mesmo tempo pela sua singularidade, à semelhança do jovem, personagem principal, de “Rosa Candida” que cultivava uma determinada espécie de rosas.

Esta jovem mulher, no dia em que atropela acidentalmente um ganso, é deixada pelo amante e pelo marido e sem que faça um grande drama disso, percebemos ao longo da narrativa que a ligação dos homens a esta mulher sempre foi mais forte do que da parte da mulher em relação a eles. É certo que o leitor não compreende a razão de a mulher ter tido um amante durante algum tempo na medida em que não estava verdadeiramente envolvida com este, nem com o próprio marido, no fundo. Esta mulher peculiar vivia apenas na sua concha, ligando-se de forma frívola com as outras pessoas, evitando-as na maior parte das situações.

Terminadas as suas relações (que não se poderá propriamente dizer amorosas), esta mulher decide fazer uma viagem para um país quente, exótico de preferência. Contudo, ao fim desse mesmo dia, há um novo dado que alterará os seus planos e a sua vida para sempre. A sua amiga Auður está grávida de gémeos e terá de ficar internada até ao final da gravidez, não tendo com quem deixar o seu filho Tumi, de quatro anos, uma criança surda-muda.

Após ganharem a lotaria na sequência de Tumi ter escolhido um bilhete, estes dois personagens empreendem uma viagem através da Islândia, constituindo, assim, uma viagem que será uma verdadeira aventura para ambos. Esta mulher aprenderá a linguagem gestual, sendo assim mais uma língua a juntar ao seu currículo, mas será a forma de aprender a comunicar com Tumi e permitir que ele se manifeste e liberte enquanto criança, não estando preso a preconceitos na relação com as outras crianças que constititui um dos maiores destaques do livro. A relação com esta criança permite a esta mulher desmistificar a ideia de que nunca seria uma boa mãe na medida em que tudo fará para o bem-estar de Tumi, no cuidado com a alimentação, nas brincadeiras, na educação. É nas brincadeiras com Tumi ou quando observa a criança na relação com as outras crianças que percebemos que todos têm o seu lugar neste mundo, não devendo haver clivagens ou impedimentos para as pessoas serem como são. Esta mulher e esta criança são exemplo disso mesmo!

A viagem pela Islândia constituirá uma verdadeira autodescoberta para estes dois personagens, do mesmo modo que, nós leitores, compreenderemos um pouco mais as condicionantes e as vivências próprias de quem vive na Islândia. Por muito que se modernize à semelhança dos outros países e mesmo quando as pessoas falam dos mesmos assuntos que os demais europeus, não deixa de ser interessante que sobressaiam aspectos muito específicos das vivências e do quotidiano daquele país-ilha.

Com uma linguagem doce e terna, cativante em muitos momentos, “A Mulher é uma Ilha” constitui uma leitura em que o leitor se distrai sem que tenha de ocupar muito o pensamento. Trata-se, pois, de uma obra ligeira que, na minha opinião, tendo em consideração a natureza da mesma, poderia ser um volume mais pequeno. Para quem leu “Rosa Candida” e que terá certamente ficado rendido aos encantos dos personagens e da própria narrativa, poderá ficar um pouco desiludido com esta nova obra de Auður Ava Ólafsdóttir que se trata de um livro que fica somente pela mediania.

Excertos:

“O destino não é coisa com que se brinque. Num só dia, perdi o meu lar e o aconchego do meu ainda curto passado. Em seu lugar, eis que recebo uma pequena casa prefabricada, amovível, a qual, por razões óbvias, se adequa mais a um terreno baldio islandês ou a uma tundra do que às florestas tropicais e às barreiras de coral presentes nos meus sonhos para o futuro.
 

Apesar de estar com pele de galinha, continuo na banheira. A minha felicidade foi um pouco por água abaixo e o meu corpo começa a distinguir-se através da espuma que vai desaparecendo. A minha mãe tem razão, estou muito magra.
 

Vejo que se abrem novas possibilidades na minha vida, planos de viagem.” (pp. 96-97)


“Algumas pessoas perdem-se, independentemente do sítio onde estiverem, e assim ficam, mais ou menos perdidas durante toda a vida.” (p. 191)

“Mas o maior mistério é a baleia. O cenário mais provável é que tenha dado à costa e, sabe-se lá como, ido parar ao parque de estacionamento frente ao banco, embora, na realidade, pareça ter vindo arrastada pelas águas das terras altas.

Aquele volume preto, gigante, é visível a partir do bangalô, uma baleia adulta, talvez com uns quinze metros de comprimento. E prenha, tal como se veio a saber mais tarde.

- Não interessa de onde veio – diz o homem. – Esta tarde, vamos cortá-la e dividir a carne pela população.

Aqui e ali, há mais animais marinhos espalhados em terra seca: bacalhau, peixe-gato e cantarilho. O mais importante é o facto de as pessoas terem sido poupadas.”
(p. 340)

Texto da autoria de Jorge Navarro



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