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domingo, 13 de dezembro de 2015

Ao Domingo com... João Pedro Marques

A Cristina Delgado convidou-me muito simpaticamente para passar algum tempo entre os meus livros e, por isso, aqui estou eu a partilhar duas ou três ideias convosco. Para quem não me conhece, talvez seja útil começar por dizer que sou historiador e tenho 66 anos. Durante muito tempo dediquei-me a investigar, a dar aulas e a escrever artigos e livros de História. Nos últimos anos, porém, chegou-me uma vontade premente de escrever ficção. Foi dessa vontade que nasceram Os Dias da Febre (2010), Uma Fazenda em África (2012), O Estranho Caso de Sebastião Moncada (2014) e, mais recentemente, Do Outro Lado do Mar (2015). Quatro romances históricos que me deram enorme prazer e que me obrigaram a um esforço de superação porque escrever um romance é mais difícil do que escrever um livro de História.  
Não acreditam? Então pensem no seguinte: a História, para ser boa, não tem de ser atraente, basta-lhe ser verdadeira, ser bem elaborada e documentada, ter rigor. Com o romance as coisas não são bem assim. É necessário criar personagens credíveis e preferencialmente ricas de um ponto de vista psicológico e humano, é preciso transmitir
sentimentos, é forçoso prender a atenção do leitor e a escrita deve ser elegante e imaginativa. Um romance não é um estudo, tem de dar prazer a ler. E as diferenças entre Literatura e História não se ficam por aqui. Na História os acontecimentos que o historiador analisa e narra já ocorreram, trata-se apenas de os identificar, de os interpretar e de dar conta deles ao leitor. No romance é preciso inventar e fabricar a intriga, ou, pelo menos, uma grande parte dela. Mais difícil, não vos parece? Se posso fazer um paralelo, o historiador é assim como o Vasco da Gama, isto é, uma pessoa cuja missão é encontrar um caminho marítimo para uma terra — a Índia — que já se sabe que lá está, só precisa de ser mostrada e tornada acessível. O romancista está mais próximo de Cristóvão Colombo, alguém que vai descobrir um Novo Mundo que, para os habitantes do Velho Mundo, ainda não existe, no sentido de que ainda ninguém o conhece nem sabe que lá está.  
Apesar de ser muitas vezes olhado como um género menor dentro da Literatura, o bom romance histórico é, em minha opinião, um exercício literário de alto grau de dificuldade porque, para ser bem conseguido, terá de realizar um estreito cruzamento entre a ficção e a verdade histórica. Tudo tem de bater certo e ser coerente. Dito de outra forma, a pessoa que escreve um romance histórico tem de estar quase sempre a meio caminho entre o Vasco da Gama e o Cristóvão Colombo e essa é uma rota difícil de descobrir e manter.  
Terei conseguido arranjar boas rotas nos quatro romances históricos que já escrevi? Eu julgo que sim, mas a opinião que verdadeiramente conta não é a minha, é a dos leitores. 

João Pedro Marques 

Entrevista dada à RTP em http://www.rtp.pt/play/p842/e211609/mar-de-letras

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