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domingo, 18 de outubro de 2015

Ao Domingo com... Hugo Ernano

Três e minutos e meio

Passaram anos e continuo a sonhar, de noite, com o que aconteceu. Uma, duas vezes por mês. Em alguns períodos acontece todas as semanas, noutras alturas não sonho com nada. São dois sonhos diferentes. Num desenrola-se tudo como naquele dia. Vejo-me como que a flutuar em cima do carro-patrulha e revejo a perseguição, muito devagar, quase em câmara lenta. Observo todos os movimentos e faço tudo igual ao que fiz naquele dia. Analiso meticulosamente se fiz bem ou mal, tento questionar se poderia ter feito de outra forma. O detalhe do sonho é tanto, que acordo exausto. E o desfecho é igual ao desfecho real, mas sinto sempre que não poderia ter actuado de outra maneira. Acordo quando a carrinha já está parada à entrada do Largo da Igreja e com ele nos meus braços. Exactamente como aconteceu.

Outras vezes, o sonho é completamente diferente. E muito pior. Revejo-me na perseguição e sei que tenho de travar a carrinha. Se não conseguir que ela pare, serei responsável pelo atropelamento de dezenas de crianças no largo. Vejo-me também de cima, como que a flutuar. Observo-me no carro-patrulha, a tentar fazer de tudo para
impedir o avanço da carrinha, mas o que tento não funciona. Quando disparo aos pneus, a arma encrava. Outras vezes, a arma até dispara, mas a bala sai sem força e vejo-a a cair, lentamente, à minha frente. Enquanto isso, a carrinha avança, progride e eu entro num desespero e numa incapacidade atrozes. Morre tanta gente. Vejo os cadáveres e sinto-me, impotente e incapaz. Falhei. Não consegui evitar as mortes. Acordo suado, sobressaltado. E não tenho vergonha de admitir que já acordei a chorar.

Quase nunca consigo voltar a adormecer. Às vezes a Daniela dá conta. Outras vezes levanto-me sem que ela acorde. Tranco-me na cozinha, abro a janela para apanhar ar. Já me aconteceu não conseguir respirar. Sei que faça o que fizer, isto vai acompanhar-me. E acompanhar-me-ia sempre, fosse qual fosse o desfecho da história. De certa forma, a minha vida parou naquele dia.

Esta é uma homenagem a todos os que me acompanharam neste percurso, desde 2008, e aos polícias que passaram, e ainda passam, pelo que eu passei e continuo a passar.

Hugo Ernano

4 comentários:

  1. Este será talvez oúnico livro do género que me interessa ler.
    Sinto imenso pelo drama deste homem...
    Boa semana querida Cris
    Teresa Carvalho

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    Respostas
    1. Queremos acreditar que há Justiça, não é Teresa? Mas às vezes é dificil... Bj

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    2. Muito obrigado pela sua escolha e espero que goste...

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    3. Muito obrigado pela sua escolha, espero que goste

      Eliminar