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domingo, 26 de abril de 2015

Ao Domingo com... Paula Dias

Preciso sempre de ter desafios paralelos na minha vida, para lhe dar sentido.
Há trinta anos que passo os meus dias a escrever em jargão jurídico. Sempre escrevi muito. Diários, cartas, bilhetes, pequenas histórias, contratos e pareceres. Depois de ter montado uma oficina de joalharia para trabalhar ao serão e aos fins-de-semana, mudei de casa e fiquei sem espaço. Dediquei-me à pintura. Estudei bastante. Viajei. Visitei muitos museus. Durante mais de 15 anos, pintei quadros a óleo. O cheiro da terebentina enlouquecia as pessoas lá de casa e estávamos todos à beira de um ataque de nervos. Também já não havia paredes para colocar os quadros e os amigos até faziam má cara quando - por vezes, a propósito de nada - eu os visitava com um quadro debaixo do braço.
Percebi que tinha que mudar de atividade paralela. Mudar de ramo. Isso. Enquanto comia as passas na madrugada do primeiro dia de 2012, decidi que me ia dedicar à escrita. Lá em casa aplaudiram com entusiasmo e, não fosse eu mudar de ideias, ofereceram-me um curso de escrita criativa na, já extinta, “Companhia do Eu”. Logo nas primeiras aulas consegui ser a pior aluna da turma. Textos sem piada e sem ritmo. Falta de hábito para gerir o tempo e para seguir instruções. Estranhei, mas habituei-me. E achei graça. Achei muita graça. O tempo passava muito depressa e passei a gostar do que escrevia. A seguir a esse primeiro curso, vieram muitos outros. Por vezes, com escritores diferentes. Mas, o que é certo, é que voltava sempre aos cursos do meu “mentor”, o escritor e poeta Pedro Sena-Lino, que é o professor de escrita mais entusiasta do mundo. Brilhante, diria eu!
E fui escrevendo contos. Escrevendo sempre. Por vezes, participava em concursos para antologias e outras compilações. Um par de desilusões e algumas injustiças. Nunca gostei de mudança de regras a meio do jogo.
Também num curso de escrita criativa, conheci algumas pessoas que, como eu, gostavam de ter uma tertúlia de leitura. E foi assim que nasceu a “Roda dos Livros”, onde me foram sendo aconselhados novos autores e onde conheci algumas das novas tendências. Sempre li bastante mas, na hora de escolher, era muito conservadora e, talvez até, um pouco preconceituosa. A “Roda dos Livros” tem a enorme utilidade de nos depararmos com “leituras diferentes” da mesma obra, de acordo com o leitor em questão. E isso, para além de tudo o mais (e o mais é muito), é mesmo enriquecedor.
Em agosto de 2014, parti uma perna em três sítios. Coisa feia. Fui operada e fiquei três meses em casa. A recuperação não estava a correr bem e adivinhavam-se novas cirurgias. Mas - soube na véspera de Natal - tinha que esperar mais três meses para ver o que era preciso fazer. Era muito tempo. O tempo iria tardar a passar, a não ser que arranjasse um projeto de que gostasse muito e que me mantivesse viva. Estava quase a fazer 50 anos e queria estar, nessa data, a dançar o tango em Buenos Aires (era um objetivo antigo). Um desiderato impossível, já que andava mal (e não dançaria o tango nem coisa nenhuma) e estavam desaconselhadas as viagens longas de avião.
E, foi assim, que surgiu a ideia do livro “três pianos e outros exercícios”, numa edição de autor. Seria o presente que daria a mim própria para comemorar os 50 anos e que, depois, partilharia com os amigos, na brincadeira.
A escolha dos contos foi instintiva e – quase - de impulso. Um porque tinha sido o primeiro que escrevi “três pianos”, outros porque me lembravam situações da vida e momentos (bons e maus) e o último que escrevi “a Glória do arroz-doce”, que me parecia ser o mais equilibrado de todos.
Pressenti, a certa altura, que o meu sentido “de estética” iria ficar abalado se o livro-objeto não ficasse bonito. Muito bonito.
Já muito em cima do acontecimento (o dito dia dos meus anos), telefonei à Patrícia Reis, para me ajudar no design. A sua extraordinária generosidade levou-a a “alinhar” na brincadeira e, através do Atelier 004, aceitou participar no projeto. Foi tudo muito rápido e duma eficácia notável. Enviei os textos e umas fotografias que a minha amiga Lisa Vaz me tinha tirado num passeio pelos miradouros de Lisboa. E, deixei a Patrícia trabalhar.
Os livros chegaram antes da data prevista. E, surpresa das surpresas: eram mesmo como eu os tinha imaginado e tinham os cantos redondos. Tinham os cantos redondos. Isso era mesmo o que eu mais queria.
E a brincadeira continuou. Fiz um jantar de anos e os livros, embrulhados e com fitas, decoravam as mesas ao centro. Surpreendi a família e os amigos com essa primeira partilha. Decidi, com a ajuda de amigos e da “Pessoa e Companhia – Associação Cultural”, fazer uma apresentação de “três pianos e outros exercícios” à séria, com direito a música, arroz-doce e vinho tinto. O Pedro Sena-Lino enviou de Bruxelas um texto lindíssimo “Uma Galáxia Por Dentro”, que foi lido pela Isabelina Jorge, minha amiga das andanças dos cursos de escrita. O Jorge Alexandre Navarro apresentou o livro e a Isabel Castelo Branco leu uns excertos. Vieram ao meu encontro sorrisos bonitos e inspiradores (os amigos da Roda dos Livros e do Coletivo Nau, e tantos outros amigos e familiares). Foi mesmo “um sábado para a categoria dos dias bem vividos”, como escreveu no dia seguinte o Paulo M. Morais. E, assim, partilhei ainda mais livros.
Agora, não sei bem o que vou fazer. Muito em breve, vou tomar umas “vitaminas para a imaginação” com o Pedro Sena-Lino e com a Patrícia Reis e, depois, logo se vê. Não penso abandonar a escrita (e até tenho uma biografia em mente - se a pessoa em causa concordar - e já sei onde mora o protagonista do meu romance; não falta tudo, portanto), mas gostava de descobrir um projeto que, de alguma forma, juntasse a escrita à pintura. Podia, talvez, optar pelas tintas de acrílico, para não arranjar problemas em casa…  
Paula Dias

5 comentários:

  1. Sendo uma edição de autor, onde se pode comprar?
    A Roda dos Livros, percebi que é um grupo ligado aos livros. Tem algum blogue?
    Obrigada desde já.

    Bom domingo:)

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  2. Olá Isabel! Aqui vai a resposta da Paula:

    "Obrigada, Isabel e bom Domingo para si também.

    O livro não está à venda, mas pode sff contactar-me através do endereço pod.paula@gmail.com.
    A Roda dos Livros tem uma página no FB https://www.facebook.com/rodadoslivros e um blogue https://rodadoslivros.wordpress.com/

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  3. Muito obrigada, Cris.
    Vou então mandar um mail à autora.
    Não tenho facebook, mas vou ver o blogue.

    Uma boa semana e mais uma vez, obrigada :)

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  4. Li este fim de semana o "três pianos e outros exercícios" e que bom foi (re) descobrir a Paula por lá. :)

    Paula, vou ficar à espera de mais contos (e do tal romance) teus.

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  5. A Bombar Paula!
    Adorei ter partilhado contigo este 2 momentos - o da festa e o do lançamento do livro.
    Parabéns!

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