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terça-feira, 14 de abril de 2015

A Convidada Escolhe: A Rapariga que Roubava Livros

Há livros que nos deixam num estado indescritível, de belos, sensíveis, inspiradores. Tinha visto o filme e tinha saído da sala de cinema naquele estado de felicidade e com a sensação de tempo bem gasto a ver uma obra belíssima. Era, pois, preciso ir à origem, ao livro que lhe deu material e inspiração e o livro é, verdadeiramente, belo.
Markus Zusak, o autor, é um jovem filho de mãe alemã e pai austríaco que ele nomeia e a quem agradece a inspiração, quer na dedicatória inicial quer nos agradecimentos no final do livro. Sem as histórias que eles lhe contaram sobre a guerra, nunca este livro teria podido ser escrito por ele.
O livro é invulgar e todo ele é feito de delicadeza, de poesia, de ternura e muita sensibilidade. As frases curtas frequentemente usadas dão mais força a toda a narrativa e aos diálogos entre as personagens.
A narradora é a Morte, sem mãos a medir naquele período horrendo que foi a declaração de guerra de Hitler ao mundo "… em 1943, eu estava praticamente em toda a parte", a qual escolhe a pequena Liesel Meminger – a rapariga que roubava livros – para nos contar a sua história, desde a viagem de comboio que faz com a mãe e o irmão até uma pequena cidade dos arredores de Hamburgo onde irá viver com os futuros pais adoptivos e o seu percurso no encontro com as palavras, os livros e as pessoas. Na macabra banalidade da morte, há histórias que sobressaem e esta da jovem Liesel toca a Morte que nos convida a acompanhar esta menina desde os finais de 1938 até 1945. Liesel é a heroína que sai dos padrões e dos estereótipos da menina bem comportada; ela joga à bola na rua com os rapazes, acompanha os rapazes para roubarem fruta e rouba livros!
Através da aprendizagem da leitura, ela ganhou o gosto da escrita que a levou a escrever sobre a sua vida e a sua experiência. Aprendeu a saborear as palavras e a aprofundar os seus sentidos, as suas nuances, as suas contradições. Um dicionário é afinal um livro extraordinário pelo mundo que nos abre! Aprendeu que com as palavras se podem descrever o céu e fazer um relato meteorológico a alguém que há meses está privado de ver a luz do sol, por estar escondido numa cave porque é judeu.
O que pode um livro? O que podem as palavras? Através dos livros, que a princípio nem sequer sabia ler, mas que exerciam sobre ela um fascínio irresistível, ela aprendeu a sua tremenda força. Era a serenidade que transmitia às pessoas aterrorizadas numa cave, quando os aviões lançavam as bombas mortíferas sobre a cidade; era a esperança da recuperação quando lia ao jovem judeu moribundo escondido pelos pais na cave da sua casa; era a companhia à vizinha cujos filhos tinham partido para a guerra.
Mas há também um momento de desespero de Liesel em que ela se rebela contra as palavras e diz " Para que servem as palavras? Por que haviam elas de existir? Sem elas não haveria nada disto. Sem palavras o Fuhrer não era nada" numa referência ao poder terrível que as palavras podem ter quando estão nas mãos de ditadores ou de gente sem pingo de humanidade.
Este livro é muito rico na análise dos sentimentos e da época. O povo alemão não é confundido com o Fuhrer e seus cães de fila. Os alemães são apresentados como vítimas de uma guerra para a qual foram arrastados e que lhes trouxe morte, fome e miséria. É sobretudo através das crianças que esse retrato é feito: como é a sua vida em condições adversas, como se habituam a viver perdendo a presença dos pais, como crescem cedo demais sem poderem aceder a uma infância normal. O autor também não esbate os sentimentos contraditórios que a guerra provoca nas pessoas que a vivem e que lutam desesperadamente pela sobrevivência: medo, alívio, remorso, vergonha e culpa. Sobretudo o sentimento de culpa por viver, por estar vivo.
Um livro que aconselho mesmo!

Almerinda Bento

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