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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ao Domingo com... João Nogueira

Este é o meu livro, “Pés bem assentes na Lua”.
    O livro surgiu como consequência de algumas dezenas crónicas e textos escritos desde 2010, publicados no blog, homónimo do livro, e no magazine Mais Opinião. 
Embora a escrita seja uma condição existencial inerente à produção de um escritor, para se ser escritor é preciso publicar, fazer a escrita nascer para os outros e eu gostava de ser escritor um dia. Um escritor de frases curtas. De palavras simples. Capaz de fazer da cara de quem me lê um teatro de fantoches. Ora a rir. Ora a chorar. Mas chorar lágrimas disparadas pelo peito. Não pelos olhos. Isso é fácil.  Mas isso leva tempo. São precisas geografias. Paisagens. Sítios. Pessoas. Filhos, talvez. Porque só podemos transformar os outros quando nos transformamos primeiro. 
    Ninguém é escritor por escrever bem. Por ter a rima que rima mais longe. Por ser espectacular a dividir sujeito e predicado. Por nunca se esquecer de colocar o acento no primeiro "a" de cágado". Um escritor traz a gramática nos olhos, primeiro. Só depois é que ela lhe foge para os dedos. 
    A capa deste livro já indica ao leitor o que se poderá encontrar. Não se trata de uma lua qualquer, nem de sapatilhas que se encontram à venda nas melhores lojas. São apenas símbolos de algo que nasce jovem. Que se pretende que seja arrojado e contemporâneo. E que tenta percorrer um percurso de sonho. Um livro com janelas para o olhar. Gavetas abertas para o quotidiano. Pretende ser uma viagem intensa pelos labirintos da alma e do tempo: família, amigos, saudade, sonho, infância. 
    Este livro fala de mim. Muito. Demais, se calhar. Numa primeira leitura pode parecer pretensioso. E numa segunda também. Mas não. Não é, de todo, essa a intenção. Escrevo aquilo que vivo. Escrevo aqueles que vivem em mim. Os viajantes da minha viagem. O bom de escrever é que desapareço. Engano o tempo. Regresso aos sítios de onde nunca saí. Às caras de onde nunca saí. Na máquina do tempo que tenho cá dentro vou lá atrás e invento futuros. E vejo-me outra vez como já fui. E como eram os meus
Escrever alivia. Guia-nos para um sítio bonito. Com sorte, leva-nos ao sítio mais alto de nós.
    Escrever afectos é difícil. Escrever sítios onde construímos o que somos é difícil. Escrever pessoas que são o nosso Deus é difícil. Escrever saudade é difícil. 
Para mim, é! Sai-me do peito. Que é onde tenho mil deuses aos berros. Escutar o deus certo dá que fazer. E eu sou um ouvinte. Que escuta os consílios que fazem as Bodas de Fígaro no meu peito.
    Às vezes escuto bem. Às vezes mal.
    Este é o meu livro. Duzentas e dezoito páginas de pessoas. E de sítios. E de Homens. E de Mulheres. E de saudade. E de tempo. E de todas as estações do ano que um Homem tem cá dentro.
    Do livro fazem parte 34 crónicas. Que, sendo pessoais, tenho a expectativa que consigam ser abrangentes, na medida em que, por mais diferentes que sejamos, temos uma idiossincrasia comum. Somos sempre mais iguais do que diferentes.
    O livro tem a pretensão de ser para todos. Porque todos temos sítios. Todos temos sonhos. Todo somos personagens da nossa própria vida. E personagens na vida dos que partilham a nossa viagem.
    Nestas linhas há muitas caras. Pessoas reais. Que amam, que desamam, que riem, que choram, que têm coragem e que têm medos. Como todos nós. Pessoas que se transformam em personagens para o leitor.
    São as minhas. As que me foram aparecendo. 
    O livro fala de distância. E de saudade. Muito de saudade.  E da relação entre ambas. Quando o amor é longe, um homem deixa de ter um ponto cardeal.  Não há remédio. Há que agradecer, porque há amor. Longe, mas amor. Passa a ser nómada. Anda de um lado para o outro. Às vezes nem sabe de que terra é. Está sempre no meio da ponte. A fazer a espargata. Um braço e uma perna para um lado. O outro braço e a outra perna para o outro. A pedir, a ambos, que o vão buscar. De um lado, família. Do outro, uma Mulher. O meu peito, que é o peito de um nómada, é um sítio com dois montes. Há andorinhas num e noutro. Também há relâmpagos num e noutro. No peito de um nómada nunca há paz. Há tribos seminuas que tocam tambor. Há música, sempre. Às vezes boa. Às vezes má. E um nómada precisa de descansar. E um nómada precisa de paz. Mas há um tesouro nos dois montes. E o nómada nunca há-de ter paz. 
    É um livro de partidas. E de chegadas. Do medo das partidas. Da euforia das chegadas. E da vida que há no meio disso. Porque a distância é aborrecida. A vida deve ser todos os dias. Não pode ser só quando calha. 
    Nestas páginas há malas. Que contam histórias. Que vão sempre levezinhas. Mas quando voltam trazem o mundo todo lá dentro. Há amigos. Mas daqueles que são animais selvagens a correrem-nos nas veias. Há amigos que a vida nos bifurcou. Que nos reduziu a lembranças. E a culpa é sempre nossa quando nos deixamos desperdiçar quando nos temos à mão de semear.
    No livro há Deus. Sem haver. Uma coisa mal resolvida. De quem acha inconcebível existir um ser perfeito. Que está em todo o lado. Que sabe tudo. Que está nas alturas. Mas que acha igualmente inconcebível que isto acabe de um momento para o outro. E que depois não haja mais Pai. Nem Mãe. Nem irmã. Nem Mulher. 
    No livro há família. A minha. Esses são o meu Deus. E neles tenho uma fé inabalável. E deles serei sempre apóstolo. Eles, que têm Deus. Mas estão enganados. Porque só devemos louvar quem é maior do que nós. E ninguém. Ninguém é maior do que Eles. 
Neste livro há Porto. Que é um sítio onde as pessoas têm pelo na venta. Fazem escarcéu. Puxam do pregão a torto e a direito. Mais a torto do que a direito. O Porto é uma maternidade de onde sai gente como a gente dos outros sítios. Quem o visita, diz que tem alma. Que é uma coisa que se vê sem ser com os olhos. Aliás, para se ver uma coisa com olhos de ver, os olhos só atrapalham. Só embaciam. Para os líricos, como eu, o Porto é Mãe.

João Nogueira

(João Nogueira, 34 anos, licenciado em Ensino Básico\1° Ciclo pela ESE de Paula Frassinetti, ex-aluno do curso de Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, colunista no magazine "Mais Opinião" e animador de sessões de Filosofia com crianças.) 
http://rjoaonogueira.wix.com/joaonogueira
https://www.facebook.com/pesbemassentesnalualivro



2 comentários:

  1. Divulgar os autores portugueses e as suas obras é de elogiar e de aplaudir. Parabéns Cris Delgado, por esta louvável rubrica. Os autores e a literatura portugueses agradecem, assim como agradecerão os leitores que apoiam os seus compatriotas.

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