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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A convidada Escolhe: Educação Europeia


“Educação Europeia”, Romain Gary, 1945

Que actual e importante é este romance. Acabado de ler na semana em que se comemoraram os 70 anos da libertação do campo de Auschwitz e se lembrou a necessidade imperiosa de não esquecer o que foi o extermínio e o horror perpetrados pelos nazis. Também na semana em que todos os olhos e vozes estiveram virados para a Grécia e para a enorme esperança que a vitória do Syrisa se reflicta na soberania e dignidade de um povo acossado por inimigos poderosos e implacáveis.
Este é, como outros livros sobre a guerra e a Resistência, uma obra que responde à necessidade de contar como foi, de trazer à memória, de fazer com que a humanidade não esqueça. Se a Europa não estivesse em guerra, se a Polónia não estivesse a ser ocupada pelo invasor nazi, certamente o jovem Janek Twardowski teria vivido uma adolescência normal, no seio da família, estudando numa escola em Vilnius como os jovens da sua idade. Mas a época era de perseguição, de arbitrariedade, de invasão e o jovem Janek rapidamente se confrontou com uma outra realidade com a qual sobreviveu enquanto durou a guerra. O seu pai construiu-lhe um esconderijo na floresta, deixou-lhe alguns sacos de batatas, deu-lhe alguns conselhos sábios que lhe permitissem sobreviver e deixou-lhe esta ideia “Nada do que é importante morre”, a qual frequentemente recordava ao longo do romance, sobretudo em momentos particularmente difíceis.
Mas a sua educação teve outro rumo. Sozinho na floresta, em breve o seu encontro com os partisans, o fez aprender a viver em condições extremamente adversas. O frio inclemente e a neve são os inimigos naturais que se juntam à fome e à guerra.
No meio do desespero, para além da lembrança terna dos pais desaparecidos, a música, a leitura e os incentivos dos feitos heróicos do camarada Nadejda são os esteios que trazem a força ao jovem Janek e aos outros companheiros da Resistência, quando parece que já não é possível aguentar mais, mesmo quando há rumores de que os alemães estão a sofrer uma pesada derrota em Estalinegrado, a grande esperança na libertação e no fim da guerra. Nadejda é a figura do herói resistente, invencível e invisível, que ninguém sabe quem é nem por onde anda, mas que é referido como aquele que, nas diversas frentes da resistência, vai infligindo derrotas ao inimigo alemão. Mais tarde Janek irá perceber que afinal há um camarada Nadejda em cada um deles e que esse é o “alimento” da Resistência nos momentos mais extremos.
De entre os vários companheiros da Resistência, Janek descobre o amor com a jovem Zozia e encontra em Dobranski um amigo, um irmão, um pai. Dobranski é quem, de entre os partisans, se dedica a levantar o moral dos companheiros, lendo os contos que vai construindo. São histórias onde a ironia alterna com relatos do horror, com as baixas infligidas pela resistência aos soldados alemães, geralmente tratados não como vencedores, mas como seres frágeis e vulneráveis. É um livro que ele vai escrevendo e partilhando com os companheiros da Resistência e que quer que seja divulgado depois que a guerra tiver acabado. Tadek Chmura um dos companheiros da Resistência sugerira “Educação Europeia” para título do livro. “Para ele, educação europeia são as bombas, os massacres, os reféns fuzilados, os homens obrigados a viver em buracos, como animais… Mas eu aceitei o desafio. Podem dizer à vontade que a liberdade, a dignidade, a honra de ser homem, enfim, tudo isso, não passam de um conto de fadas, pelo qual as pessoas morrem. A verdade é que há momentos na história, momentos como aquele que vivemos, em que tudo o que impede o homem de desesperar, tudo o que lhe permite acreditar e continuar a viver, precisa de um esconderijo, de um refúgio. Por vezes, esse refúgio é apenas uma canção, um poema, uma música, um livro. Eu queria que o meu livro fosse um desses refúgios; que, ao abri-lo, depois da guerra, quando tudo tiver acabado, os homens reencontrassem o seu bem intacto, que soubessem que puderam obrigar-nos a viver como animais, mas que não conseguiram obrigar-nos a desesperar. Não há arte desesperada, o desespero é apenas falta de talento.”
Este romance de Romain Gary, que nos recorda “Se isto é um Homem” de Primo Levi, é um livro da Resistência. Sendo datado, é, no entanto muito actual porque trata da história da humanidade, das traições, da imensa capacidade de sobrevivência, do heroísmo, da solidariedade, do amor e da amizade, da arte e da cultura como bens essenciais e em que as mulheres surgem como protagonistas tratadas ora como despojos de guerra pelos invasores, mas também capazes dos maiores sacrifícios.
Sendo embora ”Educação Europeia” e “Se isto é um Homem” gritos de resistência e registos da memória de dois homens que passaram pela guerra na luta contra o fascismo, quer-me parecer que o suicídio de ambos – Romain Gary em 1980 e Primo Levi em 1987 – é a marca de algo terrível que não se apagou nas suas vidas e que os atormentou irremediavelmente. Ficam, no entanto, eternos através da literatura e da arte que tão bem abraçaram.
Termino com uma das muitas citações que era possível aqui colocar, mas que de algum modo me tocou:
“Subitamente Janek teve a sensação de que o mundo dos homens não era mais do que um saco enorme, no qual se debatia uma massa informe de batatas cegas e sonhadoras: a humanidade.”

Almerinda Bento

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