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terça-feira, 21 de outubro de 2014

A Convidada Escolhe: A Obra ao Negro

Era um livro que tinha na minha estante há já muitos anos, mas cuja leitura fui sempre adiando, até que finalmente me decidi, tanto mais que a personalidade da autora me fascinava, desde que há alguns anos havia lido um livro de George Rousseau sobre a sua vida, editado pelas edições ASA, para além de apreciações muito favoráveis de amigos/as sobre a obra de Marguerite Yourcenar.
A elaboração de "A Obra ao Negro" que partiu de um escrito da juventude da autora, como ela própria explica numa nota no final do livro, foi sujeita a um longo período de maturação, com pausas prolongadas, até que finalmente a autora pegou nas páginas iniciais do seu escrito de 1925 e fez uma obra marcante, publicada em 1968, a qual é considerada uma obra-prima do romance contemporâneo.

A autora criou uma personagem fictícia – Zenão – e com ele construiu um romance histórico que decorre durante o século XVI, ou seja, entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento, um período de grandes convulsões e transformações que decorrem da reforma protestante e das suas consequências. Na primeira parte da obra – A Vida Errante – Zenão é um jovem de 20 anos natural de Bruges, onde nasceu e estudou para a vida eclesiástica, mas de onde parte, movido pela vontade de conhecer novos mundos, mas também de se conhecer e superar "A questão, para mim, é ser mais do que um homem." À semelhança de muitos homens da Renascença, Zenão percorreu o mundo, pôde conhecer outras realidades, aprofundou conhecimentos e alargou os seus campos de interesse e com eles as suas inquietações e sede de saber. Zenão tem várias profissões e afasta-se do clericato que lhe teria proporcionado uma vida segura: é alquimista, filósofo e médico. Escolhe o caminho mais difícil, o caminho da descoberta, da experimentação, do risco. Aqueles eram tempos negros dominados pelo terror da peste negra e também pela arbitrariedade dos detentores do poder – a Igreja e o poder temporal – em que a justiça era exercida pelo Santo Ofício em autos de fé, execuções sumárias, enforcamentos, fogueiras! Era o tempo em que todo o descontente era rotulado de protestante. O Concílio de Trento ditava as normas da contra-reforma, "O que não é como eles, é contra eles." considerava Zenão amargamente, ou "Os ventos eram cada vez menos favoráveis à liberdade de opinião".

Apesar de em certa altura Zenão ter regressado à sua terra – A Vida Imóvel – escondendo-se sob um nome falso e exercendo a profissão de médico num hospício, ajudando e curando os mais desfavorecidos, a verdade é que essa clandestinidade foi descoberta e Zenão foi considerado culpado de vários crimes pelos seus escritos, as suas viagens, as suas amizades e companhias: espião, infiel, apóstata, ligado a práticas de magia e sodomia! Num processo cheio de falsidades e contradições, o importante para o Santo Ofício era culpabilizá-lo mesmo que não houvese provas ou elas se baseassem em falsas acusações.

Mesmo no final – A Prisão – quando lhe é proposto que rejeite todo um percurso de vida feito de escolhas e se retrate das ideias que expôs nos seus livros, de modo a protelar um fim ignominioso na fogueira, Zenão mais uma vez escolhe a forma como decide acabar, recusando ser objecto do espectáculo degradante dado ao povo faminto e oprimido mas dominado pela superstição e hipocrisia instituídas, de o ver ser consumido pelas chamas da Inquisição.

Esta obra, cuja elaboração, como antes referi, se prolongou ao longo de décadas de forma descontínua, reflecte um profundo conhecimento e paixão da autora pelo século XVI e por diversas figuras que marcaram a história dessa época, desde reis e raínhas, pintores, filósofos e pensadores, alguns dos quais considerados heréticos pelos seus escritos e obras e que Marguerite Yourcenar retratou em "A Obra ao Negro" através de Zenão e de outras personagens que interagem com o herói deste grande romance.

Não poderei deixar de referir, para terminar, a cuidada e impecável tradução da 2ª edição a que tive acesso, feita por uma equipa de luxo: António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes

Almerinda Bento

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