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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A convidada Escolhe: A Tia Júlia e o Escrevedor

É um dos livros mais bem dispostos que li nos últimos tempos e mais um a acrescentar aos diversos que li deste extraordinário escritor peruano que foi Nobel da Literatura em 2010.
A Tia Julia é uma jovem boliviana na casa dos trinta, acabada de se divorciar, que vem viver para Lima para casa de uma irmã e do cunhado. Mario, o jovem estudante de direito a viver em casa dos avós, responsável pelos noticiários da Rádio Pan-Americana e com sonhos de vir um dia a ser escritor a viver numa mansarda em Paris, é ainda tratado por Marito pela numerosa família de tios e tias, dada a sua tenra idade.
Imaginem-se pois as peripécias de uma relação que se vai desenvolvendo entre uma mulher recém-divorciada e um jovem com quase metade da sua idade e com quem ainda por cima tem relações de parentesco! Só o amigo Javier, a prima Nancy e dois colegas da redacção da Pan-Americana estão a par do romance que, a certa altura, se descobre que afinal é já motivo de falatório entre os familiares de Marito.
Escrito quando Mario Vargas Llosa tinha quarenta anos, com o filtro que os anos passados sobre esse acontecimento da sua vida desdramatizam e até desvalorizam situações menos comuns e socialmente mais difíceis de gerir, este romance roda também em torno de um outro personagem invulgar: Pedro Camacho. Contratado para produzir guiões para rádio novelas, muito populares nos anos 50 numa altura em qua a televisão ainda não tinha chegado ao Peru, este boliviano profissional da escrita e da locução de novelas, rapidamente conseguiu que a Rádio Central de Lima subisse espectacularmente nas audiências, através da produção de dez diferentes novelas ouvidas religiosamente pelos rádio ouvintes limenhos ao longo do dia. Totalmente absorvido no seu trabalho, obsessivo, impermeável a quaisquer críticas ou sugestões, construía diferentes contextos, personagens, tramas mais ou menos rebuscadas e escabrosas, embrulhadas num vocabulário adjectivado até ao limite, onde nunca deixava de encontrar ocasião para mostrar a sua antipatia visceral em relação aos argentinos. Médicos ginecologistas, sargentos, Testemunhas de Jeová, exterminadores de roedores, delegados de propaganda médica, juízes, árbitros, bardos, reverendos eram alguns dos personagens principais das suas diferentes novelas, todos invariavelmente caracterizados da mesma forma: "Estava na flor da idade, nos cinquenta e os seus sinais particulares – fronte larga, nariz aquilino, olhar penetrante, rectidão e bondade de espírito". São hilariantes e rocambolescas as histórias que aquele homem arquitectava ao longo do dia, sentado em frente à Remington, mas com o passar do tempo, a exaustão, o pouco tempo para dormir e até para comer e o alheamento do mundo exterior começaram a fazer efeito e os argumentos começaram a embrulhar-se, as personagens a migrar entre novelas e aquilo que, a princípio, para alguns mais devotos ouvintes, em vez de incoerência foi considerado um artifício de estilo ou mesmo um truque usado pelo escrevedor Camacho para verificar se a audiência estava atenta, foi o princípio do fim do artista. O próprio Camacho se apercebeu que não estava a ser capaz de controlar as diferentes personagens que tinha criado e como quis tentar corrigir a tragédia em que tinha envolvido as suas novelas e a Rádio Central de Lima, ao seu estilo muito próprio, acabou com as novelas e com as suas personagens, criando todo o tipo de desastres: terramotos, incêndios, naufrágios, invasões de campos de futebol que a certa altura se transformam em praça de touros! Escusado será dizer que foi o fim da carreira do escrevedor Camacho que acabou no manicómio!
O romance estrutura-se em capítulos que alternam a saga de Varguitas e da Tia Julia com os episódios e as personagens rocambolescas criados por Pedro Camacho. No final, surge-nos o narrador/autor já com um percurso de escritor (o sonho tinha-se cumprido) por várias capitais europeias e o regresso todos os anos para um mês de férias ao Peru natal que não era senão ocasião e motivo para absorver o ambiente, as características e a alma do seu povo, alimento vital para os romances do grande escritor Mario Vargas Llosa.
Almerinda Bento

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