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terça-feira, 12 de agosto de 2014

A convidada Escolhe: O Jardim Sem Limites


Desde “Contrato Sentimental” (2009) que não lia nada de Lídia Jorge e decidi-me por “O Jardim sem Limites”, um livro herdado da minha irmã Isabel.
Trata-se de uma 1ª edição que tem a vantagem de ter uma capa desenhada por Gracinda Candeias que se percebe perfeita à medida que se vai entrando na narrativa. A cidade de Lisboa, num quente verão de 1988 e a Casa da Arara, casa de hóspedes de Julieta Lanuit são os cenários em que se mexem as personagens. Todas se mexem, excepto Leonardo – o Static Man – em processo de autosuperação, de modo a conseguir atingir o máximo de imobilidade voluntária.
A Remington no quarto da cama gigante é a observadora privilegiada, a ouvinte e aquela que transporta para o papel os factos e as interacções que se desenrolam de forma ruidosa entre os transumantes que se hospedam naquela casa inundada por uma enxurrada. Ouve, observa, capta, mas não intervem. Limita-se a estar. Há um esquema, como se fosse uma árvore que se espraia pela parede com datas, personagens, siglas, factos que se vão desenrolando ou que param de forma abrupta. Tal como o reporter Falcão, Gamito ou Paulina vão criando um enredo – um story board – imaginário a partir de imagens reais que montam, cortam e colam de acordo com um esquema que vão construindo, também aqui eles são muitas vezes surpreendidos por uma realidade que é bem mais forte e decisiva do que todos os esquemas que tinham anteriormente arquitectado.
A Remington capta os quotidianos de diversos jovens que decidiram em determinado período das suas vidas abandonar o percurso que a sociedade e os familiares tinham pensado para eles/as e que acabam por se encontrar naquele primeiro piso da Casa da Arara. O que os liga é esse desapego à vida que corre lá fora, na corrida diária para os empregos ou na rotina dos dias da grande cidade. Percebe-se que o “normal” daqueles/as filhos de família teria sido não aquela marginalidade voluntária mas sim seguirem um caminho dito sem problemas nem dificuldades. Mas eles/as quiseram ser diferentes, únicos, independentes, fizeram escolhas e assumiram o risco de ultrapassar os limites. Mesmo quando tanto aspiram a ser únicos e diferentes, os ícones e artistas consagrados da música e do cinema moldam-nos/as e “colam-se” a estes/as jovens.
Este é também um livro sobre a solidão das pessoas, a luta pela sobrevivência, as marcas para a vida deixadas pela luta de resistência ao salazarismo, o mundo subterrâneo do crime e da charlatanice. Lídia Jorge leva-nos com este livro a recordar o grande incêndio do Chiado, a lembrar os artistas que encontramos nas ruas da Baixa, os turistas que enxameiam a cidade e os homens da esquadra americana que aportam a Lisboa em exercícios militares junto à costa.
Um livro muito interessante, em que frequentemente nos pomos a imaginar e a construir mentalmente a sequência daquelas vidas, como se também nós fôssemos a Remington; nos emocionamos com os seus fracassos e tragédias, nos rimos com algumas cenas caricatas e bem humoradas ou ficamos perplexos com desenvolvimentos inesperados . Um livro que sendo datado é intemporal e retrata a condição humana naquilo que ela é de tão diversa, insatisfeita, contraditória e surpreendente.
Almerinda Bento

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