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terça-feira, 29 de julho de 2014

A Convidada Escolhe: Molinos

Depois de várias opiniões favoráveis sobre "Os demónios de Álvaro Cobra" e "Mal Nascer" entre os amigos da Roda dos Livros e na sequência da conversa com o autor num dos encontros do grupo decidi, também eu, iniciar a minha leitura da sua obra.
Estruturo as minhas leituras, habitualmente, quando se trata de um autor que quero acompanhar, pela sua ordem cronológica. Gosto de acompanhar o crescimento da escrita, a sua evolução e apreciar a sua diversidade.
Não sem dificuldade consegui comprar o primeiro romance de Carlos Campaniço.
"Molinos" é um livro muito real, com passagens que nos transportam para as histórias da oralidade rural. Mais do que escrito, imagino-o como uma tela, de fios entretecidos. No coração do Alentejo profundo dos anos 40 desfilam personagens reais e histórias diversas que nos retratam com verosimilhança a sociedade da época.
O relato crú, e por vezes revoltante, é, contudo, como que "adoçado" pelas palavras com que é transmitido, numa riqueza de escrita que por vezes se torna poética.
Com pinceladas de realismo mágico e um toque de neo-realismo, este não é um romance "cor-de-rosa", nem quando aborda os amores de Alfredo Mendonça de Oliveira. É um romance duro sobre a dura realidade da aldeia fronteiriça de Molinos, vizinha de ficção da real Safara, de onde o autor é natural. Um livro sem fim doce, mas real, muito real pois na vida há casos nunca resolvidos, injustiça e mal entendidos que permanencem.
História de contrastes entre rico e pobre, bem e mal, viajei no tempo durante a sua leitura. De tal forma me senti parte da história que nem me incomodou uma característica que habitualmente me desagrada. Carlos Campaniço teçe com mestria vidas, tempos e espaços num mesmo capítulo, com transições que se fazem de parágrafo para parágrafo sem aviso prévio e leva-nos a acompanhá-lo sem questionar.
Um primeiro romance de eleição, para mim, que faz juz aos rasgados elogios que têm recebido da parte dos amigos da Roda dos Livros as obras mais recentes deste autor, e minhas próximas leituras.
Um romance que merece, certamente, ser reeditado.

Excertos
"Demorou muito tempo até se deixar vencer pelos seus apelos rurais e tentou levar a vida pacífica dos seus primeiros anos de sacerdócio, mas os anos julgaram-no e cada dia passado flagelava-se-lhe a alma, vencia-o uma voz atormentadora que só ele escutava e o acusava de trocar a defesa dos miseráveis pelo seu comodismo estatutário. Quando entrou na casa dos sessenta anos era um clérigo gasto pelas emoções, calvo como nunca se imaginou e devastado pelo seu conflito interno. Durante anos tentou harmonizar gentes, amparar os frágeis de espírito e de boca, reuniu com uma dezena de bispos que governaram a Igreja durante todos aqueles anos , mas não reconheceu uma só melhoria ou progresso na qualidade de vida das gentes, desde os seus passos de menino até ao átrio da sua velhice. Assistiu à exploração dos homens, vendo-os receber por uma jorna diária o equivalente ao preço de um pão e um quarto de litro de azeite, à elevação dos latifundiários a caudilhos feudalistas que dispunham das autoridades locais para satisfazer as suas quimeras de justiça. Viu as crianças, que havia baptizado, usadas no cativeiro dos campos, quando ainda lhes tremia a mão para assinarem o nome. E tomou uma consciência dorida da sua inutilidade, porquanto nem as suas rezas haviam mudado o mundo nem as suas palavras retraídas, errantes de pacificação, acrescentaram harmonia social à aldeia." (p. 16)
"(...)
Quando o velho Diogo Mendonça de Oliveira foi encontrado morto, sentado numa cadeira, junta à
mesa de dominó, ainda lhe corriam as lágrimas pelo rosto. Foi um assombro sem precedentes, porque passadas vinte e quatro horas, após a sua morte, ainda as lágrimas lhe corriam pelo rosto abaixo e foi
necessário que uma empregada estivesse junto dele para lhe limpar, amiúde, o rosto molhado. O padre Lourenço mandou um telegrama ao bispo, para lhe pedir indicações sobre os procedimentos a tomar neste caso, pois havia quem julgasse tratar-se de um milagre (...) Havia mais que atribuiam o fluxo das lágrimas a uma outra vertente divina, que estava relavionada com o alcance de Deus em pôr em evidência aqueles que não morrem em arrependimento pela crueldade dos seus actos em vida. Estava pagando pela ruindade com que tratara os empregados e os desfavorecidos. (...)" (p. 111)

Fernanda Palmeira

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