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domingo, 25 de maio de 2014

Ao Domingo com... Olinda Gil

Os domingos nunca foram dias fáceis para mim. Os domingos sempre me souberam a fim. Lembro-me de ser criança: aos domingos à tarde brincava com os meus legos por detrás do sofá da sala. Havia lá um espacinho especial onde só eu cabia e onde gostava de me isolar. Lembro que aos domingos à tarde a luz que passava pela janela e iluminava o meu cantinho era sempre diferente da luz dos outros dias. No dia a seguir haveria escola e as minhas brincadeiras eram sempre nostálgicas.
Talvez venha daí, desses domingos à tarde de criança, o meu ensejo por liberdade. Não vos sei explicar bem que liberdade é esta, porque não é uma liberdade de palavras, é uma liberdade de sentidos. É uma liberdade que nada tem a ver com política ou com libertinismo. É uma liberdade que tem a ver com encruzilhadas de destinos desconhecidos, com um depósito de combustível cheio, com o vento a bater-me na cara. Chamei-lhe “chamamento do mundo”, “chamamento pelo desconhecido”, e como desconhecido é nunca soube muito bem para onde é que este chamamento me puxava. Partir, sim… mas para onde? Nunca havia nenhum lugar perfeito para onde ir. Comecei então a escrever. Encontrava esses locais dentro de mim própria e transpunha-os para o papel. Tinha 14 anos. Apesar de já me interessar antes pela escrita, de já ter feito algumas tentativas de romance, foi aos 14 anos que a escrita se tornou expressão dessa liberdade obscura, e não um mero contar de histórias. Foi nessa idade que tive a certeza do que queria da minha vida: escrever. Não quero mais nada para mim e esta foi sempre a minha única certeza. Nunca deveríamos ter estas certezas nessas idades, e por causa desta certeza cometi muitos erros. Erros dos quais hoje vivo as consequências. Mas, sem esses erros também não teria encontrado o homem da minha vida. Talvez tenha sido bom errar.
E quando me imagino a abandonar a escrita só de uma coisa me lembro: de morrer.
Os domingos à tarde nunca foram dias bons para mim. Como num gráfico já tiveram altos e baixos. Já tive domingos horríveis, de abandono. Agora tenho domingos pacíficos, apesar de tudo. Agora, muitas das vezes, é no domingo à tarde que consigo escrever.

Era muito nova e comecei a enviar textos para o Diário de Notícias. Os textos iam sendo aos poucos publicados no suplemento DN Jovem. Escrevi para lá quase durante uma década. Continuava a ser muito jovem quando terminei, e quando o próprio suplemento morreu. Foi das melhores alturas da minha vida. São as idades do sonho. Conheci pessoas, adquiri contactos, perdi-os. Anos depois, ainda jovem o suficiente para as pessoas mais velhas dizerem que não percebo nada da vida, e velha o suficiente para as mais novas me chamarem cota, resolvi pegar naqueles textos outra vez. Reuni-los. Revê-los. Rejeitar alguns. E assim surgiu Contos Breves, uma edição praticamente para a família, uma edição que acho que serviu para fazer justiça à menina que fui. Um livro que me fez feliz.
Escrevi outras coisas. Há os “impublicáveis” na gaveta. Há poesia que um dia também há-de ver luz. Há dezenas de contos, há romances a meio.
Teria cerca de 18 anos quando escrevi um conto simples e ingénuo. Nunca soube explicar porquê, mas senti sempre que esse conto tinha qualquer coisa de especial. Haveria de conhecer 21 versões, à medida que eu me tornava mulher. Depois, já na Faculdade, tive um sonho terrível, que se repetiu, que se tornou uma obsessão. Eu era Psiché e amava Eros. (Agora estou a pensar que esta frase é uma frase do conto). Tive de escrever aquela história. E quando a escrevi soube que estava ali um livro, soube que aquele conto tinha tudo a ver com o anterior. O terceiro conto, apesar de ter sido criado pouco depois, só há uns 3 anos é que foi escrito. Desse conto só tenho 1 versão. Assim nasceu Sudoeste, que sempre soube que uma editora haveria de aceitar. Foi a Coolbooks, a chancela digital da Porto Editora.

Olinda Gil

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