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domingo, 2 de março de 2014

Ao Domingo com... Julieta Monginho

Magra, olhos castanhos, cantilena. Herberto na adolescência já madura. Triste de casta, o mesmo de leitura, feliz no devaneio, madalena. Incapaz de fingir, sem dura pena. Atenta no amor. Justa loucura, de procurar irmãos na rua escura, de descobrir sinais na voz pequena. Teimosa buscadora de verdades (digo de uma só, somada em cento). Descontente da vida e das cidades. Eis aquela onde a luz apaga o vento que a si mesma cobrira de vaidades, num dia confitado em fogo lento.
                                                
Alguns anos depois de ter publicado o meu primeiro livro (Juízo Perfeito – 1996), descobri lá por casa uma espécie de diário adolescente (letra redonda, desenhinhos à margem, aspas, desesperos). Numa das entradas, esse desejo, escrever romances. Estranha descoberta. Não me lembrava de ter sentido o desejo, só de experimentar frases, inícios, exercícios pueris, e de os ter rejeitado.
Quando seguia tão bem na via da leitura compulsiva, deu-me uma vez uma história. Viajava de Lisboa para o Alentejo, a história apareceu de repente, sem que um simples sinal de aviso me tenha prevenido (Perigo! História a pedir para ser escrita).
Depois do primeiro livro, ou aceitas a escrita diária ou te calas para sempre. Com muitos sobressaltos, vieram os dias, vieram palavras, vieram os livros. Dez, contou-me alguém. Romances, alguns contos, um diário.
No último - “Metade Maior” - há uma avenida a escorregar do cimo até ao rio, carregada de gente. Calcorreei essa avenida muitas vezes, metendo a cabeça em sítios onde uma senhora não deve entrar (quartitos de pensão, atravancados de utensílios apanhados por aí, carrinhos de bebé ao lado de fogareiros a gás, quatro, seis metros quadrados). Abre-se uma porta e aparece um buraco. Abre-se buraco e sai uma família. Atrás dessa família, outra família. Às vezes crianças sozinhas, fechadas à chave. Nómada entre nómadas, assisti ao acelerar do movimento: a avenida a virar mundo, o mundo a encolher até à margem de um rio apagado.
No tribunal onde trabalho de dia, a realidade tece histórias inverosímeis. No turno da noite - o trabalho da escrita - as histórias jogam com a realidade às escondidas. Quando as encontro fartaram-se de correr, usaram máscaras sobre máscaras, já só pedem o descanso de uma folha de papel. Vou-lhes fazendo a vontade. Afinal ainda estou para perceber em que é que me distingo delas.

Julieta Monginho

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