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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A Convidada escolhe... Maldito seja o Rio do Tempo

Esta é a história conflituosa entre uma mãe e um filho. Conflituosa porque é feita de silêncios, de ausência de comunicação, de sentimentos que não se mostram, que não se deixam mostrar. É também um certo retrato de uma sociedade nórdica, onde há como que um pudor na expressão dos sentimentos.

Arvid, a personagem principal, a viver um processo de divórcio após uma relação de 15 anos, sente-se à deriva. Estamos em 1989, o muro de Berlim caiu e com ele, todas ou grande parte das “âncoras” de Arvid, militante comunista que optara na juventude por deixar a universidade
e viver na pele a condição de proletário entrando para uma tipografia, ruíram também. Aos 37 anos, a sua vida está numa encruzilhada do ponto de vista emocional e ideológico. A mãe, que sempre o considerara imaturo e com quem sempre teve uma relação distante, apesar de as inúmeras referências literárias apontarem para uma cumplicidade entre ambos, vê-se confrontada com um cancro no estômago. Um verdadeiro murro no estômago!
Numa relação desgastada com o marido, vivendo num país com que nunca se identificou e de cuja geografia nunca gostou, a inesperada doença leva a mãe a fazer uma viagem de despedida à sua terra natal na Dinamarca – a sua “casa” - onde vai ao encontro do lugar e das pessoas da infância e também do lugar onde teve um dos filhos cuja morte a marcou.
  
Numa tentativa de estar perto da mãe e de lhe dizer aquilo que antes nunca tinha conseguido dizer, Arvid segue a mãe até à Dinamarca, à casa de verão, mas essa tentativa em nada muda o desencontro e o desencanto que caracterizaram o seu relacionamento familiar ao longo da vida.
O título do livro, retirado de um dos poemas de Mao, figura presente na formação ideológica e enquanto ícone no quarto de juventude de Arvid, remete-nos para a estrutura do livro onde o presente e o passado surgem a par e passo. São sobretudo as imagens de um certo desencanto e frustração que o marcam mais e estão mais presentes - a incompreensão por parte da classe trabalhadora na fábrica onde militava, a morte do irmão, a mãe “de costas viradas” – embora entremeadas com o prazer da descoberta do primeiro amor e da “autonomia” da juventude, o que quer que isso seja. 

O livro é muito descritivo, às vezes até demasiado descritivo, ao nomear as ruas, praças e percursos, conseguindo transmitir o frio do Norte, o vento, a humidade das roupas. Outro aspecto que achei muito interessante no livro é as referências literárias e musicais que enformam a personalidade das personagens e que as ligam entre si, porque foram decisivas em determinados períodos das suas vidas: “O Fio da Navalha”, “O Arco do Triunfo”, Steinbeck, Hemingway, Erich Maria Remarque, Scott Fitzgerald, Victor Hugo, Beatles, Janis Joplin ou Bob Dylan. 

Per Petterson, numa entrevista à revista Ípsilon de 12 de Julho de 2013 diz que Arvid é como que um duplo de si próprio e que a escrita, nomeadamente a deste livro, é uma forma de tentar “resolver” assuntos que ele próprio viveu, nomeadamente as dificuldades de comunicação com a mãe, vitimada no incêndio de um ferry, a quem nunca pôde dizer aquilo que precisava de ser dito. 

Almerinda Bento

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