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domingo, 14 de julho de 2013

Ao Domingo com... Cristina Drios


(ode ao quotidiano)     


o fracasso é uma tábua rasa
a chávena onde bebo a meia de leite pingada
um dia e outro e outro e outro
um aperto de mão ao colega doutor e por extenso
às nove da manhã
vestidas do avesso como a roupa
quando reparo na racha da chávena – meia de leite pingada por favor –
e o empregado aponta
na camisola trago uma nódoa tão antiga como o desespero
um dia e outro e outro e outro
antes disto
andei à procura na gaveta das peúgas desirmanadas
nos papéis da caixa “ideias para depois”
debaixo da sola dos sapatos a precisar de capas  
na serradura (alguém ainda usa serradura?) da caixa da gata onde há resquícios
mas são tão ínfimos como o orvalho de verão às nove da manhã
(então lembro-me: a gata morreu em janeiro e ainda não me desfiz da serradura)
e é tudo tão desgostoso como o olhar de peixe do doutor e por extenso
que uma vez mais faço tábua rasa
pois o mal de viver cheira a ranço e sabe a fénico
nos dias em que visto a vida do avesso
saio a correr de mim mesma
sempre a tentar chegar a horas a mim mesma
e ferem-me gáspeas de luz fria como o olhar do colega
que nunca se lembrou de pensar que é feito do mesmo fracasso
e dele faz tábua rasa sorrindo
a cheirar a água de colónia e a mastigar bem as palavras – senhora doutora juíza –
um dia e outro e outro e outro
a que só sei escapar
escrevendo romances em que me despenho muito melhor
de lantejoulas e saltos altos
enquanto trato dos papéis do divórcio com o quotidiano – colega faça favor –
um dia e outro e outro e outro

Cristina Drios                                                                               

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