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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A convidada escolhe... "Terna é a noite"


Tenho na estante mas nunca lhe peguei e com este comentário da Almerinda não é tão cedo que ele vem para a minha mesa-de-cabeceira... (Cris)

Foi um livro difícil, que li de forma muito descontínua, mas que me "forcei" a ler até ao fim.
Mas não foi fácil e por isso já há alguns meses que ia “arrastando” o livro sem grandes avanços ao longo das cerca de 360 páginas. Não só se tornou difícil pela estrutura narrativa, algo descontínua e errática, sobretudo na primeira parte do livro, como a própria personalidade
fútil de uma elite endinheirada que constitui as personagens do livro, não me prendeu grandemente a atenção.

Claro que há aspectos interessantes que aqui são aflorados, muitos deles datados, mas que ainda vão persistindo, nomeadamente a patologização da homossexualidade que aqui surge como «doença» a ser tratada pela psiquiatria.

(…)
“- Trata-se de um pai que tem problemas com o filho…
- Mas de que se trata? Alcoolismo? Homossexualidade? Quando se fala em Lausanne…
- Um pouco de tudo isso.”

Ou o racismo que excluía pessoas negras de poderem entrar em hotéis de luxo da Riviera nos anos 20 do século passado. Interessante também uma questão tão actual e que se liga com uma questão de ética profissional que é a separação emocional que tem de haver na relação entre paciente e psiquiatra e esta é, quanto a mim, talvez uma das questões centrais deste livro. Ao que consta, o caso destas personagens centrais deste romance reflecte a própria experiência de Scott Fitzgerald e da mulher hospitalizada por problemas de esquizofrenia.

Muito sinteticamente pode-se dizer que este livro trata uma situação de um psiquiatra que se casa com uma doente a quem foi diagnosticada esquizofrenia e cuja relação, com o tempo, se foi degradando. No final, o médico entra num processo de degradação pessoal e de dificuldades ao nível dos relacionamentos sociais, fruto de uma cada vez maior dependência do álcool, enquanto a mulher se vai progressivamente tornando mais autónoma e segura de si, libertando-se de um casamento já sem sentido.

(…) “De certo modo, tinha delegado nele a função de pensar e, na sua ausência, todos os seus actos pareciam automaticamente conduzidos pela vontade dele, a ponto de já não conseguir oferecer-lhe resistência. No entanto, tinha de o fazer. Sabia, finalmente, qual o número da porta terrível da fantasia, o limiar para a fuga que não era fuga; sabia que, a partir de agora, o maior pecado que poderia cometer era enganar-se a si própria. Fora uma longa lição mas conseguira aprendê-la. Ou pensamos, ou outros pensam por nós e nos dominam, pervertem e disciplinam os nossos gostos naturais, civilizando-nos e esterilizando-nos.”

Por fim, voltando ao título que evoca a amenidade do clima mediterrânico da Riviera, onde decorre grande parte do romance, a obra começa com os versos da Ode a um Rouxinol de John Keats:

Enfim contigo! Terna é a noite…
… Mas aqui não há luz,
A não ser a que vem do céu, trazida pelo vento,
Serpenteando pelo verdor melancólico
De caminhos musgosos.

Almerinda Bento

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