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domingo, 20 de maio de 2012

Ao Domingo com... Rui Guedes


"Nasci em 1970, numa localidade de nome Amora, na margem sul do Tejo. Se lhe retirarmos o ultimo a, fica Amor. E foi, de facto, com amor que fui crescendo numa altura em que as brincadeiras ainda tinham muito pouco de virtual. E ao reinventá-las, tendo por base o cinema, a literatura e outras artes populares fui desenvolvendo assim a minha criatividade.


Formei-me em engenharia eletrotécnica, não percebendo na adolescência, que essa mesma criatividade era a minha maior valência. Podia ter sido publicitário, marketeer, escritor. Mas a razão sobrepôs-se ao coração e fiquei-me pela ciência do engenho e não da comunicação. Mais tarde, o instinto sobrepôs-se à razão ficando um coração cheio de sonho. Tirei uma pós-graduação em comunicação e imagem e passei a ver a vida a cores, e não através de um filtro monocromático que me desvirtuava a realidade. Porém esta, nunca consegui alterar, como uma daquelas pessoas, que por muito que se lhe peça para não nos chamar de engenheiro, ela recorrentemente diz “Sr. Engenheiro…”.


Tive três filhos gémeos, uma dos quais com surdez profunda bilateral. E nem toda a criatividade do mundo conseguiria mudar este facto. Mas a ciência, como que em reconciliação comigo, perdoando-me a traição do desejo da comunicação, dotou-a de uma cóclea artificial estando já, com 7 anos, muito perto da verbalização dos irmãos de igual idade.


E foi exatamente este episodio menos bom da experiencia da paternidade que me impeliu a criar uma história à roda de um pai ausente e uma criança deficiente. O meu romance “O Querubim Azul” tendo um fundo autobiográfico é uma ficção contagiante sobre sentimentos e por vezes a falta absoluta deles que nos caracteriza mais e mais como espécie humana.


Qualquer deficiência de um filho para um pai ou mãe é avassaladora, desde a mais simples à mais dilacerante. No meu caso literário, a deficiência que escolhi, fez-me amplificar a raiva e ódio que senti, podendo apenas imaginar o que sentiria se fosse o pai do Martim, não sendo porém o Ricardo Riso. Muita critica social, económica e politica envolta numa linguagem crua e sem tabu por sexo ou religião, mas também revestida de humor, fazem d’ “O Querubim Azul” um livro absolutamente contemporâneo; em que a ampulheta da humanidade está cheia de uma areia fina, material, egoísta, estando por seu turno  a sua camara superior num vácuo de indiferença. Este livro, através de um sopro de esperança, tenta desequilibrar o seu eixo, que de certa forma rode 180º, transformando a pirâmide arenosa, agora invertida, no mais nobre e sólido valor humano: o Amor.


Ao escrevê-lo, acabei por concretizar parte do sonho, tendo mesmo que às vezes pedir àquelas pessoas que me tratam por escritor para não o fazerem, embora elas acabem sempre por me chamar de “Sr. Escritor…”…"


Rui Guedes

1 comentário:

  1. Aqui está uma entrevista que me tocou... e me espevitou a curiosidade para o livro!
    Teresa Carvalho

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