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domingo, 18 de março de 2012

Ao Domingo com... Sofia Marrecas Ferreira



"Comecei a escrever quando descobri que as palavras tinham sabor e cheiro, que podiam ser vozes coloridas e imagens em três dimensões, que caminhavam a passo de tartaruga na minha cabeça. Tinham nome de gente e andavam à solta pelas ruas, tinham nomes de peixes e eram encarnadas, tinham nomes de pássaros e eram azuis, tinham nome de Sol e de areia e eram amarelas, tinham nome de nuvens e eram brancas.


Na altura, eram palavras pequeninas, feitas de letras e de sílabas que eu encostava umas às outras, delineando-as a giz numa parede da casa de banho, às escondidas dos meus Pais. Nessa parede, escrevi muitos poemas, muito maus com certeza, muitas cartas também, e lia muito, muito.


Pouco a pouco, percebi que, às vezes, os peixes eram afogados, que os pássaros caíam de nuvens azuis, e que a gente era feita de homens e de mulheres que não andavam à solta pelas ruas, mas gritavam com as mãos presas às grades de gaiolas muito grandes. A vontade de escrever nasceu então da curiosidade que tinha pelo mundo e pelos outros, e também da necessidade de viver outras vidas para além da minha.


Quando ingressei na Faculdade Clássica de Lisboa tive a sorte de ter excelentes professores: Mário Dionísio, David Mourão-Ferreira, Ema Silva Santos, e tambem Urbano Tavares Rodrigues que nos contava muitas histórias passadas nas prisões do País, onde a PIDE se encarregara de torturar quem se opunha ao Antigo Regime. Nunca mais me esqueci das histórias e das palavras que as contaram e que, daquela vez, se tinham tornado carne viva por terem retratado experiências vividas.


Desde então viajei muito e, ultimamente, também estive no Médio Oriente. E sei que as palavras são sempre precisas, que é bom que se encostem umas às outras, que renasçam e criem alento, sem receio nem pouca-vergonha, para que sejam de todas as dores e se ergam contra a infâmia das espingardas, para que se insurjam contra o desabar das bombas, para que contem o sangue e a solidão das mães que caíram sem asas como pássaros azuis à deriva nos desertos. Escrever. Escrever sempre, para que as palavras que escrevemos voltem a ser as vozes coloridas que um dia foram, e contem homens e mulheres que andam à solta, enfim livres pelas ruas."

Sofia Marrecas Ferreira


A minha opinião de Às vezes o mar não chega: aqui.
Cris

1 comentário:

  1. Gostei particularmente desta "Conversa"...
    Palavras tão fluídas, frases tão simples e que dizem tanto. Gostei mesmo.
    Beijinhos
    Teresa Carvalho

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