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quinta-feira, 25 de maio de 2017

A escolha do Jorge: "Viajante à Luz da Lua"


 "Levamos dentro de nós a direcção do nosso caminho, e dentro de nós brilham as eternas estrelas do nosso destino." (p. 220)
Singular, electrizante, nocturno, e intimista, quatro adjectivos que caracterizam “Viajante à Luz da Lua” do húngaro Antal Szerb (1901-1945). O livro que constitui uma das referências da literatura húngara contemporânea foi recentemente publicado pela editora Guerra & Paz, permitindo, desta forma, aos leitores portugueses o contacto com um autor que se percebe ser grande por todos os elementos que integra neste romance sublime e magistral.
Fazendo uma breve pesquisa sobre a vida de Antal Szerb, rapidamente percebemos que muitos aspectos se reflectem em “Viajante à Luz da Lua”. Considerado uma referência no meio académico do seu país, Antal Szerb foi eleito Presidente da Academia Literária Húngara, em 1933, e tornou-se professor de Literatura da Universidade de Szegad, em 1937. Falava fluentemente várias línguas e viveu durante alguns anos em países como a França, Inglaterra e Itália. Foi galardoado em 1935 e 1937 com o Prémio Baumgarten, além de ter traduzido obras a partir do francês, inglês e italiano. Herdeiro de toda uma tradição cultural judaica pela via seus pais, Antal Szerb foi, contudo, baptizado católico, ainda que durante o regime nazi, tenha sido perseguido devido à sua ascendência, as suas obras foram proibidas, acabando por ser enviado para o campo de concentração de Balf, na Hungria, onde viria a morrer, em 1945.
Em relação à obra “Viajante à Luz da Lua”, Antal Szerb constrói uma narrativa em torno de Mihály, um adolescente burguês de Budapeste, assente na nostalgia permanente que remonta a uma juventude feliz face a um período da vida em que sentiu o amor de uma forma idílica, pura, na relação com alguns amigos próximos em que confundia a fronteira entre a amizade e o amor e onde o teatro desempenhava uma componente determinante, de sublimação. A obsessão pela morte tornou-se uma constante na representação de sucessivos papéis ao ponto de Mihály apostar ao máximo na representação de obras de referência da literatura ou mesmo de acontecimentos históricos em que a morte estivesse presente. A necessidade de representar a morte constituía um misto de fascínio pela necessidade em que a imaginação é estimulada face ao desejo de representar a melhor das mortes, mas também de perceber que a vida continua para lá do teatro através das suas múltiplas “ressurreições” ou “ressurgimentos” como se a vida e a morte não passassem de um mero jogo.
“O mais difícil era ter de participar nos seus jogos. Não tenho nenhuma inclinação para o teatro nem para a interpretação, sou irremediavelmente tímido e, ao princípio, quase sempre senti que iria morrer, quando me vestiam o colete roxo do avô para desempenhar o papel do Papa Alexandre VI, numa peça sobre os Bórgia. Mais tarde, habituei-me a isso, mas não era capaz de improvisar aquelas frases barrocas que eles conseguiam. Em contrapartida, era uma excelente vítima. Era o melhor para ser envenenado ou frito em óleo a ferver. Algumas vezes tive de representar a multidão, vítima da crueldade de Ivan, o Terrível, e agonizar e morrer vinte e cinco vezes seguidas, e sempre de uma maneira diferente. As minhas técnicas de agonia tinham muito sucesso.
Também tenho de te contar outra coisa, apesar de me custar um pouco, mesmo depois de ter bebido tanto vinho, mas a minha mulher deve saber isto: gostava muito de ser vítima. Logo de manhã, já pensava nisso e esperava pelo momento durante o dia todo, sim…
- Porque gostavas tanto de ser vítima? – perguntou Erzsi.
- Hum… por razões eróticas, se é que me faço entender… Com o passar do tempo, era eu que inventava as histórias em que podia desempenhar o papel de vítima.” (pp. 37-38)
O palco de representação destes sucessivos papéis era a casa de Tamás e Éva, irmãos pobres, sem mãe e com um pai alcoólico, ambiente que exercia fascínio sobre Mihály e outros amigos burgueses na medida em que aquele convívio colidia com as regras e valores em que a burguesia se movia. O contraste dos ambientes, aquela pobreza desmesurada e a ausência de consciência da realidade por parte dos irmãos Tamás e Éva funcionavam como que um desejo de revolta face a uma ordem estabelecida, mas prestes a ruir com a 1ª Guerra Mundial.
Esta amizade acaba por se confundir com amor na medida em que os rapazes deste grupo se sentiam apaixonados por Éva que por sua vez mantinha uma relação deveras íntima com o seu irmão Tamás. A amizade e o convívio com estes irmãos marcou para sempre a vida dos demais rapazes, nomeadamente Mihály que para sempre nutriu um amor obsessivo por Éva, mas também por Tamás que acabou por ter uma morte trágica, sendo que, a partir daí ainda se consolidou mais a ideia de perseguir a morte, de a desejar, como que havendo um erotismo ao concretizá-la, para amar, para compreender e para depois ressurgir novamente algures numa outra esfera.
Neste grupo de amigos há um indivíduo com um percurso peculiar. Trata-se de Ervin que, em certa medida, tem tantos traços em comum com o próprio Antal Szerb, sobretudo no que concerne ao aspecto da religião. Ervin era judeu, mas converteu-se num católico fervoroso. Enquanto que para os demais amigos, o catolicismo constituía uma espécie de adaptação, para Ervin era a forma de demonstrar a rebeldia. Ervin tornou-se tão rigoroso consigo próprio face ao fascínio que sentia pela “severidade intransigente dos dogmas e das ordens morais” do catolicismo que “vigiava com uma pistola a salvação da sua alma.” (p. 43)
A nostalgia, o desejo de morrer, a obsessão por Éva que nunca terá ido além da forma de amor idílico ou platónico, não consumado acompanharão Mihály durante vários anos ao ponto de em plena lua-de-mel, com a sua esposa Erzsi, em Itália, se sente perturbado na sequência de um inusitado encontro com um dos amigos da adolescência. Os fantasmas regressam em cadeia à mente de Mihály ao ponto de interrogar tudo à sua volta, o sentido da vida, balançando entre o dever e o desejo abandonar o barco, seguindo a sua vida, descobrindo-se a si próprio.
E é isso que acontece… Mihály perde o comboio para Roma onde está Erzsi, trilhando cada um o seu caminho. Mihály jamais esquecerá a sua viagem a Itália, que sempre adiou, por considerar um país intenso, rico em História, em emoções e sensações, paisagens únicas que mexem com o seu intelecto e espírito.
Será esta sensação de “liberdade destruidora” (p. 187) que moverá Mihály. A planeada lua-de-mel de Mihály é substituída por uma longa viagem pela Itália, uma viagem de auto-reconhecimento, de descoberta, de morte e de ressurgimento, de perdão, mas também de amor. É à noite, nas inúmeras vielas e becos de algumas cidades que Mihály compreende a essência do ser humano, de si próprio. As sombras que contrastam com a luz, a escuridão, tantas vezes associados a estado de alma, de espírito, como se tratasse de uma luta titânica entre o desejo e o dever, o amor e o ódio, a paz e a guerra, a vida e a morte.
Inúmeras são as alusões a outras obras de referência no âmbito da literatura, mas também da História e da Filosofia, colocando Antal Szerb como um escritor completo fazendo a ponte entre a escrita e o conhecimento científico. “Viajante à Luz da Lua” para além do seu carácter intimista em que o leitor embarca, faz também a fusão entre a história das religiões e a ideia e sentido de história e de civilização apresentado por Oswald Spengler (1880-1936). Segundo o historiador e filósofo alemão, cada civilização tem o seu ciclo de vida semelhante ao do ser humano em termos biológicos – nasce, cresce, amadurece, entra em declínio e morre. Assim, cada cultura ou civilização poderá fundir-se numa outra cultura ou civilização que se lhe sobreponha, “engolindo-a”, mas mantendo alguns dos princípios ou valores que passam a ser adaptados a uma nova realidade emergente, actual. Independentemente desta sobreposição e fusão civilizacional, há uma ideia de civilização que subjaz a todas as civilizações que tem que ver com o filtro que que vai fazendo no decorrer dos séculos, pura depuração temporal, fruto das vivências face às novas necessidades que se impõem ao homem enquanto ser biológico e cultural, não esquecendo todas as conquistas alcançadas no domínio da ciência e da técnica que caracterizam um dado período e que é transmitido à geração seguinte.
Há uma passagem determinante que reflecte as ideias acima referidas quase como se tratasse de um ensaio ou de uma aula de Teoria da História e do conhecimento histórico que Antal Szerb, de forma exímia, transpõe neste romance. “No início da época romana, o cristianismo estava constantemente ameaçado de se converter na mais pura religião de morte, parecida com a dos índios do México. Mas depois, veio ao de cima o seu carácter mediterrânico e humano. O que se tinha passado? Os povos do Mediterrâneo conseguiram sublimar e racionalizar o desejo da morte, quero dizer que conseguiram atenuar o desejo da morte num desejo de além, transformaram o terrível ‘sex-appeal’ das sereias da morte numa coisa chamada coros e ordens celestes. Desde então, os crentes puderam aspirar a uma morte bonita, não desejavam os prazeres pagãos do acto de morrer, mas os prazeres civilizados e convenientes do paraíso. O desejo primitivo, ancestral e pagão da morte foi relegado para as camadas inferiores da religião, as superstições, os feitiços e o satanismo. Quanto mais forte é uma civilização, mais inconsciente se torna o amor pela morte.” (p. 186)
“Viajante à Luz da Lua” apresenta-se como uma obra magistral, completa, complexa, intimista, além de constituir em si mesma uma lufada de ar fresco no presente contexto editorial, apresentando o escritor Antal Szerb como um dos vultos incontornáveis da literatura contemporânea húngara, sendo marcadamente um herdeiro de toda uma tradição judeo-cristã naquilo que alude à herança cultural de toda uma grande família europeia, não esquecendo a ideia de destino, de sofrimento e também de renovação presentes no Judaísmo e que foram sublimados pelo Cristianismo.
Texto da autoria de Jorge Navarro


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Experiencias na Cozinha : Granola Caseira

As granolas estão na moda. Há em todos os supermercados pacotes de granola com variadíssimos ingredientes onde a aveia é a rainha, mas convém ler os rótulos. O açucar está em todo o lado, até mesmo onde menos de espera...

Já fiz granola várias vezes mas estas últimas semanas tenho feito sobretudo para um dos meus filhotes. Os cereais de pequeno-almoço "de compra" são tudo menos saudáveis e ele até é bastante receptivo a estas alterações. Para variar, não segui a receita toda mas as receitas são para isso mesmo.

Fiz assim:

Misturei a um pacote de aveia (para celíacos devem verificar se não tem gluten por contaminação) 50 gr de sementes de girassol, 50gr de sementes de abóbora, 100 gr de nozes partidas grosseiramente à mão, 100 gr de castanhas do Brasil picadas também grosseiramente num processador (usei a Bimby).

Juntei numa taça 4 colh sopa de óleo de coco, 70 ml de mel (usei um mel de confiança) e 1 colh sopa de cacau magro em pó. O mel pode ser substituido por xarope de ácer ou xarope de tâmaras que ē bem mais saudável. Mas para o D aprovar tenho de ir com calma...

Juntei esta mistura à aveia e misturei bem. Vai ao forno por 40m mexendo de vez em quando com um garfo. 5m antes de retirar juntei um pouco de arroz tufado. Retirei do forno e, ainda quente, coloquei cochocate preto 70% partido aos pedaços para que fosse derretendo um pouco e bagas de gogi.

Depois de frio foi para um frasco tapado.

Notas: Numa das granolas não coloquei o cacau em pó nem o arroz tufado. Pus flocos de coco depois de fria e sementes de linhaça antes de ir ao forno. E é isso! Pode-se variar nos ingredientes e dar largas à imaginação... Um conselho: as bagas gogi não vão ao forno porque ficam esturricadas. Ficam com um pequeno almoço saudável e podem misturar nos iogurtes (uso de soja, naturais) ou juntar alguma fruta e comer mesmo assim.

Ficam as fotos:

Granola 1

 



Granola 2 






Cris

terça-feira, 23 de maio de 2017

A convidada escolhe: “Nem todas as baleias voam”

      Oh, que livro! Foi assim com estas palavras que cheguei ao fim deste livro. Pura poesia, o que dizer sobre ele? Anotei tanta expressão, transcrevi períodos inteiros, não quis deixar de guardar algumas falas que mais me impressionaram e agora parece que tudo o que escrever é pequeno e pobre.
      É um tributo à música, ao jazz, à arte, mas é também um livro sobre o desencontro amoroso, o abandono, o desamparo, a amizade, o medo da morte, as cicatrizes do nazismo, a tensão entre potências naquele período a que se chamou Guerra Fria.
      Todos procuram algo, todos lutam pela esperança, a Utopia. A CIA quer dominar o mundo e neutralizar os russos, acreditando que o conseguirá fazer usando o poder do jazz. Erik Gould quer reaver a sua mulher, a única que amou na vida e que um dia desaparece, acredita que um dia ao telefonar para casa ela estará lá para o atender. Quem sabe se as mensagens que lança ao mar dentro de garrafas de cerveja algum dia chegarão até ela? Isaac Dresner anseia por um futuro perfeito sem guerras nem violências, gostaria de esquecer os horrores que testemunhou e gere uma livraria insólita – “Humilhados e Ofendidos” – que não dá lucro. Tristan anseia ser feliz, quer sentir que não está só no mundo, gostaria de não ser atormentado pela presença constante da morte e, entretanto, vai guardando numa caixa de sapatos os pequenos objectos que considera essenciais, a sua arca de sobrevivência. Tem como bússolas um atlas, onde vai traçando o roteiro imaginário da mãe que desapareceu e um “Dicionário de Sinónimos, Poético e de Epítetos”para encontrar as palavras que lhe faltam. Isaac e Tsilia são para Tristan os substitutos dos pais ausentes, tal como Clementine, a prostituta, é ouvinte, confidente atenta e relatora de escritos gnósticos. O Escritor/Homem do Chapéu Cinzento que não se quer dar a conhecer, para quem todo o processo criativo é violência e coação, até mesmo conseguir que as baleias voem! As prostitutas – Clementine e Arlette – são mulheres fortes e sabedoras, guardadoras de segredos e memórias.
      O livro parte da ideia insólita saída das mentes da CIA, numa altura de grande descrédito da administração americana, de pretender conquistar o mundo através da música, mais propriamente do jazz, uma música “desalinhada”, que encarna a revolta contra a opressão, a exploração, o racismo, ou seja, as doenças que o capitalismo gera. Levando-a até junto dos jovens russos, quem sabe os conseguiria conquistar e levá-los a rejeitar os ideais da então União Soviética? Para tal, nada como usar os “Jazz Ambassadors”, tal era o nome do plano, em digressões que entrassem no campo inimigo com uma arma diferente: a música, o jazz. Erik Gould,o pianista que respira música por todos os poros, seria o escolhido pela agência americana para essa missão insólita. Tal como o filho Tristan que sofria de sinestesia e via sentimentos, Erik Gould via notas musicais em tudo. Uma doença, uma obsessão. A arte é afinal a matéria desta obra de Afonso Cruz, inelutável quando se é capturado por ela. Clementine é exemplo disso: começou a prostituir-se por causa da música; queria comprar um fagote para poder tocar Bach.

“Um tipo larga a heroína, mas não larga a música.”
“Não imagina a quantidade de vezes que já tentei deixar a música. Mas não consigo, não se consegue, ninguém consegue.”
“ – E porque queria ele largar a música?
-Isso não sei, mas acho que por paixão, queria entregar-se a uma só, a Natasha Zimina, e o piano era uma espécie de adultério.”
“A arte é a maior estupidez humana. Serve para quê?”
“A arte é um desvio da norma. A arte é uma doença da expressividade humana.”
“- … os livros não explicam nada. 
- Então, porquê lê-los? 
- Para ignorar mais. É assim que nos tornamos cada vez mais livres.”
 “Não abras as gaiolas dos pássaros, senão morrem de liberdade.”
“Todos os sábados de manhã, acontecia-lhe a mesma coisa, uma ténue esperança de que tivesse chegado o dia, mas as notícias, a realidade, tudo desmentia essa esperança num futuro perfeito, nesse imenso sábado em que o leão se deitaria com a ovelha.”
“Haveria um imenso sábado, um dia.”
“Os milagres acontecem nos sábados em que menos esperamos.”

      Este é o primeiro livro que li de Afonso Cruz. Certamente a sua actividade multifacetada como escritor, músico, cineasta e ilustrador é a fonte de onde brota a criatividade e inspiração para “Nem todas as Baleias Voam”.

Almerinda Bento 
Maio 2017

segunda-feira, 22 de maio de 2017

"Os Vadios" de Emily Bitto

      Li com bastante interesse este livro, chamada que fui pela sinopse que captou a minha atenção logo quando a li. 
      Foi uma viagem agradabilíssima que fiz a uma Austrália boémia dos anos 30. É através dos olhos de Lily que recordamos a sua infância e a sua adolescência. Uma forte amizade com uma colega da escola levou-a a entrar num ambiente diferente do que vivia em casa. Filha única de pais bastante conservadores, o mundo que se lhe abriu perante os olhos deslumbrou-a! O pai de Eva, a amiga inseparavel, era um pintor relativamente conhecido. O ambiente boémio que encontrou nessa casa, que aos poucos foi considerando sua, fascinou-a ao ponto de ir escrevendo em pequenos cadernos aquilo que considerava relevante, diferente, mantendo-se quase sempre como observadora.
      A casa de Eva passou a ser a sua casa. O ambiente que aos oito anos lhe era estranho passou a fazer parte da sua vida. Cresceu e sempre que podia ficava nessa casa onde tudo era novo. Sobretudo a liberdade. Os adultos não interferiam. Eva e suas irmãs cresciam numa liberdade (ou indeferença?) que Lily não possuía. Os artistas que lá viviam, a sua arte e formas de encarar o mundo, fizeram-na ter um olhar diferente sobre o mundo em seu redor. No entanto, o seu elo de ligação com esse mundo sempre foi Eva. O que terá ocorrido que motivou a quebra dessa amizade?
      Sabemos quase no início da narrativa que algo se passou que levou ao afastamento dessa amizade especial. O mistério fica por revelar, claro. O passado é descoberto aos poucos, as implicações dessa amizade e suas consequências também. 
      Bem escrita, esta história manteve-me atenta durante todas as suas páginas. Creio que esperava algo mais forte pois, dado o ambiente descrito e vivido pelos personagens, o motivo da separação destas duas amigas não constituiu, para mim, uma surpresa grande. No entanto, relembro que se trata do primeiro livro desta escritora, o que me leva a ficar disponível, curiosa e ter vontade de ler um próximo livro seu. 

Terminado em 18 de Maio de 2017

Estrelas: 4*

Sinopse
      No seu primeiro dia de aulas numa nova escola, Lily trava amizade com Eva, uma das filhas do infame artista avant-garde Evan Trentham. Ele e a sua esposa, Helena, tentam escapar ao conservadorismo sufocante da Austrália dos anos 1930 convidando outros artistas, cujo ideal e ambição se coadunam com os seus, para viver e trabalhar em sua casa. À medida que a amizade de Lily e Eva cresce, a primeira deixar-se-á seduzir pela excentricidade desta residência de artistas, ansiando por se integrar e pertencer verdadeiramente a uma família improvisada. Mas há sempre um preço a pagar pelo sonho e, falhada a utopia, serão as filhas de Evan que mais sofrerão com as escolhas dos pais.
      Emily Bitto oferece-nos em Os Vadios, o seu romance de estreia, uma narrativa comovente acerca da amizade insuperável entre duas raparigas com uma cumplicidade muito própria - de um lado a voracidade e irreverência de Eva, do outro o torpor e uma certa rigidez de Lily - ambas como que alimentando-se uma da outra. Uma fascinante história de ambição, sacrifício e lealdades comprometidas.

Cris

domingo, 21 de maio de 2017

"Isabel de Aragão" de Isabel Stilwell ou uma visita ao Castelo de S. Jorge

      Gosto muito da escrita de Isabel Stilwell. Os seus romances são grandes, com letra miúda mas nada aborrecidos, como já tenho dito aqui no blogue. Pelo contrário! A História é-nos transmitida com leveza e os pormenores, muitos, passam por uma atenção cuidada sobre os conteúdos da época mas também por uma fértil imaginação que Isabel possui. Não fora o peso que os seus livros têm, seriam lidos por mim com mais rapidez!
      Gosto da forma clara como a autora situa temporalmente a acção, da sua escrita límpida, simples, mas repleta de pormenores, alguns reais outros fictícios. Realmente cativante. Mas gostei também desta leitura pelos seus capítulos curtos pontuados por vivências quotidianas fáceis de imaginar. E de sentir.
      Adorei especialmente a descrição dos momentos em que as mães (rainhas) têm de se separar das suas filhas porque os acordos nupciais assim as obrigavam. Crianças pequenas (demasiado), de idades entre os 4 os 12 anos, que mudando de país vão para perto dos noivos prometidos, esperando o dia do casamento. Foram momentos descritos com muito cuidado, partilhando os sentimentos tanto dos pais como das próprias crianças. Fizeram-me pensar como aquelas crianças se viram obrigadas a crescer rapidamente.

A visita

      Este seu livro novo, "Isabel de Aragão, Entre o Céu e o Inferno", semi-dormia na minha mesa de cabeceira há algum tempo, pois gentilmente a Manuscrito fez-mo chegar. Ando habitualmente bastante a pé e não consigo andar muito carregada: foram as queixas dos braços e sobretudo da coluna, que me impediram de o ler mais cedo. Mas, a visita ao Castelo de S. Jorge, fez com que acelerasse a minha vontade de o acabar e este fim de semana foi de leitura intensa!
      Faltam-me 50 páginas (conto lê-las ainda hoje!) e mesmo ainda sem o acabar sei que estrelas lhe vou dar. Creio que nunca fiz um post sem acabar de ler um livro e será, portanto, uma excepção. Mas, como quero ainda hoje falar-vos da visita ao Castelo...

      A convite da editora Manuscrito realizou-se uma visita guiada pela autora, no Castelo de S. Jorrge, ontem pelas 18 h. Gostei da pontualidade, da organização, das leituras efetuadas por uma filha da autora e sobretudo das explicações de Isabel Stilwell e de uma arqueóloga, membro de uma equipa do Castelo.
      Facilitou já estar a mais de meio da leitura porque determinados acontecimentos relatados tinham dentro de mim um " ah, aqui foi quando aconteceu isto ou aquilo...". Um fim de tarde muito agradável na companhia de uma amiga "dos livros". Obrigada V. pela companhia. O meu obrigada também à editora e à autora (ainda não foi desta que fiquei com o livro autografado porque saimos mal acabou).

Deixo-vos com algumas fotos.

 




Terminado em 21 de Maio de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
      Entre o céu e o inferno. Assim foi a vida de Isabel de Aragão.
      Nasceu envolta no saco sagrado, a 11 de fevereiro de 1270, em Saragoça. Cresceu a ouvir histórias de grandes conquistas, de reinos divididos por lutas sangrentas entre pais e filhos e entre irmãos. A história de Caim e Abel. Uma história que se repetiu ao longo da sua vida…       Aos 12 anos casou com D. Dinis, rei de Portugal, e junto dele governou durante 44 anos. Praticou o bem, tocou em leprosos e lavou-lhes os pés, gastou a sua fortuna pessoal a ajudar os que mais precisavam e mandou construir o mosteiro de Santa Clara. Da sua lenda fazem parte milagres.
      Junto dos seus embaixadores e espiões, com a ajuda da sua sempre fiel Vataça, jogou de forma astuta no tabuleiro do poder. Mas a história teimava em repetir-se. Caim e Abel. Pai contra filho, o seu único filho varão contra os meios-irmãos bastardos.
      Sempre acreditou que a película em que nascera a protegeria de tudo, mas nos últimos tempos de vida sentia-se frágil e vulnerável. E duvidava. Onde falhara como mulher e mãe?

sábado, 20 de maio de 2017

Na minha caixa de correio

  


E a semana foi assim:
Comprados em segunda mão, como novos, As Aventuras de Augie March e Uma Noite, Markovitch.
Os Filhos dos Nazis foi oferta da editora Guerra e Paz.
Tudo pela Minha Mãe foi oferta da Marcador.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A escolha do Jorge: Eu que servi o Rei de Inglaterra


      Uma das minhas recentes descobertas no mundo dos livros foi o checo Bohumil Hrabal (1914-1997) de quem já tive a oportunidade de ler “Uma Solidão Demasiado Ruidosa”, “A Terra onde o Tempo parou”, “Terno Bárbaro” e, mais recentemente, “Eu que servi o Rei de Inglaterra.”
      Um escritor que viu as suas obras proibidas durante o regime comunista e esquecido durante anos a fio, não deixa, contudo, de lhe ser reconhecida a sua genialidade. Herdeiro de toda uma tradição de grandes escritores da Europa Central, como o próprio Kafka, Bohumil Hrabal é juntamente com o seu amigo, escritor e pintor, Vladimír Boudník (1926-1968), os fundadores do explosionismo, um movimento oriundo na Checoslováquia que se caracteriza pela sombra deixada pela 2ª Guerra Mundial, assim como o inconformismo face à nova realidade de parte da Europa sob o domínio comunista. Na verdade, a obra “Terno Bárbaro” constitui por si só, uma obra que ilustra as principais características do explosionismo, assim como a estreita relação e as experiências vividas por Hrabal e Boudník numa casa
minúscula em Praga onde acontecem as histórias mais mirabolantes.
      A roçar o surreal e o fantástico, quando lemos Bohumil Hrabal entramos numa esfera da literatura que é muito própria. Estranhamos porque é diferente, mas rapidamente somos conquistados pelos seus laivos de loucura e rebeldia, alternados por momentos de uma rara e doce ternura que nos comove.“Lisa explicava-me, com orgulho, que aqui havia o ar mais saudável da Europa central – há ainda um lugar assim perto de Praga (…) -, e é aqui que existe a primeira estação europeia de criação eugénica da raça humana, o primeiro centro instalado pelo partido nacional-socialista com o fim de desenvolver a raça alemã graças ao cruzamento do sangue nobre das raparigas alemãs com o sangue puro de reprodutores selecionados, tanto na Wehrmacht como das SS, tudo em bases científicas, aqui não só diariamente aconteciam coitos nacional-socialistas, da mesma maneira que se acasalavam, como os animais, os antigos Germanos, mas aqui sobretudo as futuras parturientes, que traziam no seu seio os novos homens da Europa, davam à luz crianças que, um ano depois, partiriam para o Tirol, a Baviera e a Floresta Negra, ou para a beira-mar, para aí, nas primeiras creches e infantários, continuarem a educação do homem novo, naturalmente já sem as mães mas sob o controlo da nova escola.”
      “Eu que servi o Rei de Inglaterra” conta-nos a história de um adolescente que começa a trabalhar num hotel e que aprende todos os truques, regras e segredos da profissão através de um dos funcionários. Todas as apostas feitas entre ambos ditaram a vitória do mais velho e quando questionado “como é que sabe?”, a resposta era sempre a mesma “porque servi o Rei de Inglaterra”! Tudo constituía uma novidade para este jovem que, aliado à descoberta dos prazeres do sexo e do amor, são muitas as cenas que nos transportam para o espírito do filme “Grand Budapest Hotel” de Wes Anderson, sobretudo no ritmo alucinante em que viajamos quando o vemos, assim como na loucura que é essa mesma viagem que espelha acontecimentos históricos.
      Não sendo o melhor dos livros de Hrabal, “Eu que servi o Rei de Inglaterra” não deixa, contudo, de salientar algumas das principais características e recursos utilizados nas obras lidas anteriormente. Em todo o caso, ler Hrabal, mesmo esta obra em particular, é estarmos perante uma obra que reflecte a genialidade e originalidade deste escritor checo que muito contribuiu para a riqueza da literatura ocidental.
      Ler Hrabal é entrar no mundo da loucura, da alucinação, do surreal. Mas esta obra em particular segue em linha com um período específico da História que coincide com a ascensão de Hitler ao poder, a 2ª Guerra Mundial e a “Cortina de Ferro”, no Leste europeu, com incidência na Checoslováquia. E “Eu que servi o Rei de Inglaterra” é também perceber que a passagem da extrema direita à extrema esquerda, naquela região da Europa, foi em si mesma, um caso de loucura, de alucinação e porque não perceber que tantas vezes se pode fazer uma leitura surreal de certos períodos da História, de como foi possível terem ocorrido situações tanto horríveis como caricatas.
      Um dos momentos hilariantes desta obra é sem dúvida quando o personagem principal, apaixonado por uma alemã que venerava o Terceiro Reich, teve de se submeter a exames médicos fortemente controlados pelos nazis, em virtude de ser checo, de forma a comprovar a qualidade do seu sémen, para que não prejudicasse a concepção de uma criança pura, ariana, que iria fazer parte daquilo que chamariam “o novo homem”. Descrições cómicas à parte, o certo é que a criança do casal era deficiente mental e que só tinha apetência para pregar pregos no chão com um martelo. Esta ideia de ridículo misturada com o cómico é um dos traços da escrita de Hrabal que, neste caso em particular, serve para brincar ou mesmo ridicularizar com as ideias que estiveram em vigor numa parte da Europa durante as décadas de 30 e de 40, sem contudo, esquecermos das vítimas que estas ideias fomentaram.
      E terminando à boa maneira de Hrabal “Por hoje é tudo.” E sabem porquê? “Porque eu servi o Imperador da Abissínia!”

Excerto:
“Lisa explicava-me, com orgulho, que aqui havia o ar mais saudável da Europa central – há ainda um lugar assim perto de Praga (…) -, e é aqui que existe a primeira estação europeia de criação eugénica da raça humana, o primeiro centro instalado pelo partido nacional-socialista com o fim de desenvolver a raça alemã graças ao cruzamento do sangue nobre das raparigas alemãs com o sangue puro de reprodutores selecionados, tanto na Wehrmacht como das SS, tudo em bases científicas, aqui não só diariamente aconteciam coitos nacional-socialistas, da mesma maneira que se acasalavam, como os animais, os antigos Germanos, mas aqui sobretudo as futuras parturientes, que traziam no seu seio os novos homens da Europa, davam à luz crianças que, um ano depois, partiriam para o Tirol, a Baviera e a Floresta Negra, ou para a beira-mar, para aí, nas primeiras creches e infantários, continuarem a educação do homem novo, naturalmente já sem as mães mas sob o controlo da nova escola.”
(p. 128)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Passatempo Porto Editora

Olá, Olá.
O blogue tem mais um livro para oferecer aos seus seguidores, desta feita com o apoio da Porto Editora.
Trata-se do livro "Uma Esperança mais Forte do que o Mar" de Melissa Fleming.

Para concorrer basta enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com indicando; Nome, Morada e o nick de seguidor do blogue.

O passatempo decorre até ao próximo dia 30 de Maio.

Boa sorte.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Experiências na Cozinha: Grão de Bico Crocante

      Fácil, fácil esta receita! Do jeito que eu gosto! Um aperitivo delicioso retirado do livro da Joana Alves do blogue Le Passe Vite, que sigo com muito prazer. Devo dizer-vos que o seu livro está maravilhoso. Folheem-no e digam de vossa justiça...

      E fiz assim: 

      Pré-aqueci o forno a 200 graus e forrei um tabuleiro com papel vegetal. Depois, abri um frasco de grão (cozido é claro!) mas se cozerem grão será melhor... Lavei bem e, num pano lavado, esfregeui o grao delicadamente para sair a maior parte da casca. Juntei numa taça azeite, paprika, sal marinho integral, cominhos, pimenta preta e  tomilho seco. Misturei com o grão e levei ao forno até estar crocante, mexendo de vez em quando. Retirei do forno e retifiquei os temperos com mais um pouco de paprika. 

      Ficam as fotos.




 


Cris

terça-feira, 16 de maio de 2017

"A Filha Estrangeira" de Najat El Hachmi

      Relato íntimo de uma menina/mulher que cresceu fora do seu país de origem (Marrocos) porque sua mãe partiu para uma região no interior da Catalunha à procura do seu pai que, entretanto, tinha deixado de dar notícias quando para lá emigrou. Conseguiram sobreviver as duas, sozinhas, com muitas dificuldades económicas sendo que viveu sempre para esse amor, para essa mãe que trabalhava arduamente para a conseguir sustentar. Isso foi determinante nas suas decisões. De tal forma que se deixou anular para seguir os passos que esperavam que ela tomasse, aquilo que era a tradição do seu país.
      Cresceu, assim, noutro país e apreendeu uma nova língua com outros significados culturais e, mais do que isso, outros costumes. Na escola era uma das melhores alunas. Inteligente, a leitura dava-lhe um prazer imenso, tanto mais que muitos divertimentos estavam-lhe interditos... O choque cultural, naturalmente, não se fez esperar. Esmagar o que aprendeu, esconder os seus desejos para obedecer ao que a família esperava dela não seria fácil. De todo. Como se apaga o nosso "eu"?
      Escrito na primeira pessoa, este relado é de tal forma íntimo, revelador dos sentimentos vividos por essa menina/mulher marroquina, que alguns aspectos deixam de ter importância. Por exemplo, agora que cheguei ao fim desta leitura e que escrevo estas páginas, dou-me conta que não fixei o nome da personagem principal. Tão pouco me lembro de o ter visto escrito. E, no entanto, ela está tão bem caracterizada que, de imediato, ficamos cativos das suas palavras, do seu sentir. Que importa, portanto, o seu nome? Ele traduz, de forma inequívoca, o rosto de tantas meninas/mulheres que crescem e assimilam os costumes de um país mas que são condicionadas pelos costumes de seu país de origem.
      Na contracapa está uma frase que, para mim, define espectacularmente este livro e com a qual concordo em absoluto: "um livro que fica connosco". Muito para lá do terminus da sua leitura, o leitor fica a pensar na situação que é retratada porque reflete uma realidade muito atual. Recomendo vivamente!

Terminado em 12 de Maio de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
Uma rapariga nascida em Marrocos e criada numa cidade interior da Catalunha aproxima-se da idade adulta. À rebeldia característica da juventude, ela terá de acrescentar um dilema: sair do seu mundo de emigrante ou permanecer nele. Um romance íntimo e honesto sobre a transição para a idade adulta, escrito em forma de monólogo interior, repleto de observações, histórias e memórias da terra natal da narradora, uma jovem viva e inteligente, apaixonada pela literatura e pela filosofia, completamente diferente do mundo iletrado e tradicional da mãe. Acessível, por vezes engraçado, mas sempre íntimo e repleto de observações e pensamentos pertinentes. Um livro que fica connosco.

Cris

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"Amor em Minúsculas" de Francesc Miralles

      Um retrato cheio de humor sobre a vida de um homem solteirão, com uma vida sensaborona, onde o passar dos dias é algo constante e sem interesse. Este professor de Linguística faz da sua vida um lento caminhar entre a sua casa e a faculdade onde lecciona. Sem desvios, sem alterações. Sem surpresas.
      A entrada inesperada na sua vida de um pequeno animal, cria condições para que a "amizade" entre aos poucos na sua vida. Primeiro é um vizinho, depois uma amizade de infância que regressa, um desconhecido num café passa a conhecido, a amigo. Pequenas transformações que ele se dá conta levam-no a tomar consciência que os pequenos detalhes podem, afinal, ter uma importância imensa e que devemos estar atentos. O tomar consciência que a vida pode ser feita de pequenos nadas é uma coisa que o surpreende e encanta.
      Supus, erradamente, que o final seria outro. Talvez preferisse alguma surpresa para o terminus da história, algo que levasse o leitor a um maior espanto. A refleção, essa, fica. 

Terminado em 7 de Maio de 2017

Estrelas: 4*

Sinopse
      Ao acordar no dia 1 de Janeiro, Samuel, um professor de Linguística solitário, está convencido de que o ano que se inicia só lhe trará verbos no passivo e poucos momentos em itálico, até que um visitante inesperado se esgueira para dentro do seu apartamento e se recusa a sair. Mishima, um gato vadio, torna-se o catalisador que faz Samuel abandonar a comodidade dos seus livros favoritos, dos seus filmes estrangeiros e da sua música clássica, para ir a lugares onde nunca esteve - como a casa do vizinho - e conhecer pessoas que jamais pensaria conhecer - um velho com o qual nunca trocaria uma palavra. Mas há mais: o gato fará com que ele reencontre Gabriela, uma misteriosa mulher do seu passado, que ele já não tinha esperança de voltar a ver. Uma história inteligente, divertida e doce que nos comove e revela que os pequenos detalhes são o grande segredo da felicidade.
      "Amor em Minúsculas" é uma pequena preciosidade e está a causar furor internacional. Um livro adorável que conjuga referências literárias e filosóficas com a magia única das pequenas coisas.

Cris

domingo, 14 de maio de 2017

Ao Domingo com... Isabel Valadão

      No início, já tardio, desta nova etapa da minha vida que a escrita consubstancia,
foi a expectativa do “lucro”, nem sempre vil, que me motivou. Não sabia que os escritores também tinham que correr maratonas para ganharem dos leitores um olhar menos casual… Tão importante como sermos, nós próprios, observadores atentos do mundo que nos rodeia é sermos igualmente notados por esse mundo!
      E essa nova etapa da minha vida começou quando, a meio dos meus quarenta anos, decidi concretizar um projecto antigo: licenciar-me em História para poder interpretar a Arte nas suas tão variadas expressões. A História da Arte!
      Foi nessa altura que comecei também a escrever para marcar no papel um sentimento de saudade pela terra onde vivi a maior parte da minha vida. Foi pel’’A Sombra do Imbondeiro’ que comecei.
      Um projecto de cada vez! Quis deixar às minhas netas, sempre distantes fisicamente, um testemunho de quem fui, por onde passei e os caminhos que trilhei nessa aventura inesquecível que foi Angola.
      Pelo meio, desiludida com a impossibilidade física de encontrar trabalho em Portugal, dediquei-me ao estudo em privado do património histórico português, ao restauro de quadros dos grandes e pequenos mestres da Pintura, à Museologia – e aos meus queridos animais peludos…
      A Investigação nas suas mais variadas formas, foi sempre incontornável na minha actividade profissional… E desta, desde que me tornei Historiadora, iam nascendo os projectos da escrita. Deles surgiriam o ‘Loanda – Donas, Escravas e Senhoras’ e o ‘Angola – As Ricas Donas’, dos publicados. Por publicar, eternamente inacabados, outros tantos…
      Foi difícil a nossa adaptação ao país que nos acolheu onde nos chamaram ‘Retornados’ como se a palavra estivesse escrita no bilhete de identidade. Na linguagem dos anfitriões ainda não tinha sido inventada a palavra ‘Refugiados’… E, por isso, também por mil outras razões, decidimos tentar um recomeço – mais um! – em Macau, uma porta entreaberta para uma China ainda longe da de hoje… E, tantos anos depois dessa experiência, surge agora ‘O Rio das Pérolas’…
     Se tenho projectos? Claro que os tenho! Sempre os tive.
      Mas, como sempre, espero sempre pelo dia seguinte e com ele a oportunidade de realizar mais um!

      Um projecto de cada vez!
                               
A Sinopse:
"Maria e Mei Lin podiam ser duas pessoas diferentes. Na verdade, são duas facetas da mesma mulher. Quando Mei Lin, uma menina irreverente, com grandes sonhos, foge do convento e das freiras que a criaram para não se ver condenada a uma vida sem fulgor, predestinada por outros, estava longe de imaginar que a sua escolha a precipitaria para o submundo das casas de ópio e de prostituição de Macau. Mas o destino prega-lhe uma partida e Mei Lin acaba por ser vendida como pei-pa-chai — no fundo, uma escrava sexual. É então que conhece Manuel, filho de uma das famílias portuguesas mais importantes do Território, alguém que lhe pode dar outra vida.
Mas será a nova família capaz de a aceitar? E será que o passado ficou verdadeiramente para trás? Uma viagem por Macau nas décadas de 40, 50 e 60 e pelas contradições da vida num território português às portas da China, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial e da guerra sino-japonesa."

Isabel Valadão

sábado, 13 de maio de 2017

Na minha caixa de correio

  

  

  

 

Esta semana foi assim:
Oferta do Grupo Porto Editora/Bertrand num encontro para bloggers para revelar algumas novidades que este grupo nos vai presentear na FLL: A Última Vítima, Pussy e A Educação de Eleanor.
Oferta da Marcador, A Terra Que Pisamos.
Oferta da Topseller, Isto Acaba Aqui.
O terceiro livro de um amigo muito querido, Se Vier Vento de Norte, Chove.
Da Planeta chegou Ilhas de Paixão.
Dos passatempos do JN recebi: Como Vento Selvagem, O Coração de Simon Contra o Mundo, As Receitas Saudáveis e A Tentação de Sermos Felizes.

Novidade TopSeller


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Novidade Bertrand

O Que Viram as Flores
de Julia Heaberlin
Sou estrela de cabeçalhos de jornal e de histórias assustadoras à roda da fogueira.
Sou uma das quatro raparigas das susanas-de-olhos negros. A que teve sorte.

      Aos 16 anos, Tessa foi encontrada num campo do Texas, quase morta e só com alguns fragmentos de memória em relação à sua chegada ali. A imprensa chama-lhe a única Susana-de-Olhos-Negros que sobreviveu a um serial killer.
      O testemunho de Tessa mandou um homem para o corredor da morte.
      Passados 20 anos, Tessa é artista e mãe solteira. Num dia de fevereiro, abre a janela do seu quarto e depara com um magnífico canteiro de susanas-de-olhos-negros diante de si, embora se trate de flores de verão.
      Será que o homem que espera a morte é inocente? E andará o serial killer atrás dela? Ou, pior ainda, da sua filha?

Novidade Clube do Autor


Novidade Porto Editora

A Educação de Eleanor
de Gail Honeyman
      Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal – ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.
      Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond – o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras – e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua. A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Novidade TopSeller


Novidade Alfaguara

O Meu Nome Era Eileen
de Ottessa Moshfegh
      Um thriller hipnótico e arrepiante. Com a paisagem nevada da Nova Inglaterra como pano de fundo, a história de Eileen é arrepiante, hipnótica e divertida. Com um primeiro romance cheio de força, que agarra e perturba o leitor até à última página, Ottessa Moshfegh faz uma entrada retumbante nas letras norte-americanas. Romance vencedor do Prémio PEN/Hemingway para melhor romance de estreia.

Novidade Companhia das Letras

O Deslumbre de Cecilia Fluss
de João Tordo
      O final da «Trilogia dos Lugares Sem Nome».
      Aos catorze anos, Matias Flussé um adolescente preocupado com três coisas: o sexo, um tio enlouquecido e as fábulas budistas. Vive com a mãe e a irmã mais velha, Cecilia, numa espécie de ninho onde lambe as feridas da juventude: a primeira paixão, as dúvidas existenciais, os conflitos de afirmação. Sempre que sente o copo a transbordar, refugia-se na cabana isolada do tio Elias. Cedo, contudo, a inocência lhe será arrancada. Ao virar da esquina, encontra-se o golpe mais duro da sua vida: o desaparecimento súbito de Cecilia que, afundada numa paixão por um homem desconhecido, é vista pela última vez a saltar de uma ponte.
      Muito mais tarde, Matias será obrigado a revisitar a dor, quando a sua pacata vida de professor universitário for interrompida por uma carta vinda das sombras do passado, lançando a suspeita sobre o que aconteceu realmente à sua irmã -sem saber ainda que regressar ao passado poderá significar, também, resgatar-se a si mesmo.
      No final desta "trilogia da intimidade", iniciada com "O Luto de Elias Gro", João Tordo explora, através de personagens únicas e universais, numa geografia singular, os temas da memória e do afecto, do amor e da desolação, da vida terrena e espiritual, procurando aquilo que com mais força nos liga aos outros e a nós próprios.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

"A Mãe Eterna" de Betty Milan

      Há livros que nos tocam particularmente. São lidos na altura certa. Talvez por isso as suas palavras penetram no mais profundo de nós. Vivêmo-las cá dentro. E por isso são únicos, como se fossem escritos para nós. Só para nós. Ou por nós.
      Foi o que me acontceu ao ler este Mãe Eterna. A autora desnuda-se e escreve para sua mãe. Uma filha que escreve para a mãe, para a mãe que um dia ela foi e que (quase) já não é pois os seus 98 anos transformaram-na noutra pessoa. Os seus noventa e oito anos fizeram estragos nessa mãe, como é natural, que ela ama, e Betty Milan, nessas palavras, recorda com saudade uma mãe que já não tem.
      Sofrido. Doloroso, mas surpreendentemente emotivo, real e comovente. Que toca cá dentro quando as palavras que lhe são dirigidas podem ser nossas, quando o sentimento é igual. Não fora pequenos nadas e poderiamos pensar que a (nossa) mãe evaporou-se e transformou-se noutra pessoa que já não conhecemos.

Vou deixar-vos aqui alguns extratos. Nunca faço isso. Com esse livro abri uma excepção.

"Já não tenho como me abrir com a minha mãe, ela ouve pouco e quase não se interessa. Por causa da idade avançada, deixou de ser quem era. Para suportar a perda, escrevo a uma interlocutora imaginária, uma interlocutora tão capaz de um amor incondicional. A escrita é um recurso vital quando a palavra é impossível e, na falta do destinatário desejado, inventamos outro."

"Se tu pudesses consolar-me! Mas o tempo do consolo passou. Já não podes. Quem deve poder agora sou eu, e para ser livre, preciso aceitar isso. Hoje és menos a nossa mãe do que o legado de si mesma. Semiviva, como um passarinho que partiu a asa e está destinado a permanecer até ao fim no chão... Que já não é passarinho pois já não voa.

Só não desejo a tua morte porque tu, de repente, ressurges como eras... uma palavrinha ou um gesto que evoca o passado... e dás-me a ilusão de eu ser ainda a tua eterna filha." 

"Se eu pudesse dar-te a vida de novo...fazer-te nascer de mim como eu nasci de ti... Não paro de desejar o impossível. Apesar dos teus 98 anos, não suporto perder-te. Eu, que sei do fim de tudo, não me conformo com o teu fim. (...) Sei que só a impermanência possibilita a renovação do Universo. Porém o coração não acompanha a cabeça."

Terminado em 1 de Maio de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
Aos 98 anos, com a saúde debilitada, a mãe mal ouve e quase não vê. A filha, que se vê no papel de mãe da própria mãe, questiona os médicos, as religiões, tudo. Para quê manter vivo alguém que já não vive? Num relato comovente, em forma de diário, a filha descreve as peripécias do dia-a-dia com a mãe; ao Um livro forte, uma reflexão gritante de tão actual, A Mãe Eterna apresenta-nos um dilema que mói a alma e nos faz questionar a vida, a morte e a relação mãe-filha.

Cris

Espaço do Grupo Porto Editora na Feira do Livro